A Covid-19 deixou no Brasil um
rastro de pelo menos 716.626 mortes, hospitais superlotados, famílias separadas
e pacientes que morreram sem a possibilidade de se despedir dos parentes. Nos
momentos mais dramáticos, profissionais de saúde trabalharam até a exaustão,
doentes enfrentaram filas por leitos de UTI e Manaus viveu um colapso
hospitalar marcado pela falta de oxigênio. No Rio Grande do Norte, mais de 9,3
mil vidas foram perdidas.
Seis anos depois do início da
emergência sanitária, o candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Álvaro Dias
(PL) trouxe essas feridas novamente ao debate ao voltar a defender a eficácia
da ivermectina contra a doença. A declaração recupera uma das principais
bandeiras do chamado “tratamento precoce”, propagado durante a pandemia pelo
então presidente Jair Bolsonaro e por seus apoiadores, apesar da ausência de
comprovação científica.
Durante sabatina promovida pela
Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern) e pelo Sindicato das
Empresas de Rádio, Televisão, Jornais, Portais e Revistas (Midiacom-RN), Álvaro
afirmou que posições defendidas por ele estariam sendo confirmadas atualmente.
“Muitas das coisas que nós
defendemos estão sendo agora reconhecidas, como a eficácia da ivermectina”,
declarou. O ex-prefeito acrescentou que havia sido condenado e criticado por
defender o medicamento e sustentou que sua eficácia no tratamento ou na prevenção
do coronavírus estaria sendo reconhecida.
A declaração, porém, não encontra
respaldo nas evidências científicas disponíveis. A Organização Mundial da Saúde orientou que a
ivermectina não fosse utilizada contra a Covid-19 fora de ensaios clínicos.
Uma revisão da Cochrane, referência internacional em análise de
evidências médicas, concluiu não haver comprovação que sustente o medicamento
para tratar a doença ou prevenir a infecção.
O ensaio clínico TOGETHER,
realizado no Brasil e publicado
no New England Journal of Medicine, também constatou que a ivermectina não
reduziu hospitalizações nem atendimentos prolongados de emergência. Outro
estudo randomizado, com 1.591 participantes e publicado
pela revista científica JAMA, não identificou melhora significativa no
tempo de recuperação.
A afirmação de Álvaro ocorreu
depois que voltou a circular nas redes sociais uma alegação segundo a qual uma
revisão de 106 estudos, envolvendo mais de 200 mil pacientes, teria comprovado
eficácia de 70% da ivermectina. A porcentagem foi retirada de uma plataforma
anônima que reúne trabalhos com metodologias e níveis de qualidade diferentes,
incluindo pesquisas limitadas, estudos observacionais e artigos questionados.
O conteúdo não representa mudança
na posição das principais instituições científicas e sanitárias. Ministério da
Saúde, Fundação Oswaldo Cruz, Anvisa e OMS não reconhecem a ivermectina como
medicamento para prevenção ou tratamento da Covid-19. A própria fabricante
Merck declarou não ter encontrado base científica para um possível efeito
terapêutico.
Negacionismo marcou governo
Bolsonaro
A defesa do vermífugo aproxima
Álvaro de uma das bandeiras políticas adotadas pelo bolsonarismo durante a
maior crise sanitária da história recente do País. A condução da pandemia pelo
governo Jair Bolsonaro ficou marcada pela minimização da gravidade do vírus,
pelo confronto com medidas de distanciamento e pelo incentivo a medicamentos
sem eficácia comprovada.
Bolsonaro chamou a doença de
“gripezinha”, participou de aglomerações, apareceu repetidamente sem máscara e
questionou medidas destinadas a reduzir a circulação do vírus. Diante do
crescimento das mortes, respondeu com frases como “não sou coveiro” e “E daí?”.
Em março de 2021, durante o colapso hospitalar, declarou que era preciso deixar
de “frescura” e “mimimi”. Posteriormente, reconheceu ter perdido a linha ao
fazer parte dessas declarações.
O então presidente também
promoveu cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina como componentes do
“tratamento precoce”. As divergências em torno dessa política estiveram entre
os elementos de desgaste com os ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson
Teich, que deixaram o governo em 2020.
Ao mesmo tempo, Bolsonaro
questionou publicamente a segurança das vacinas e afirmou que não receberia o
imunizante. Ao comentar as condições contratuais da Pfizer, declarou: “Se você
virar um jacaré, é problema de você”, conforme registro mantido no acervo oficial da Presidência.
A demora na aquisição das vacinas
tornou-se um dos principais pontos da CPI da Pandemia. Em depoimento ao Senado,
o presidente da Pfizer na América Latina informou que ofertas apresentadas ao governo brasileiro em agosto de 2020
ficaram sem resposta. O primeiro contrato com a empresa só seria firmado em
março de 2021.
O relatório final da CPI atribuiu
nove possíveis crimes a Bolsonaro e recomendou seu indiciamento, inclusive por
infração de medida sanitária preventiva, charlatanismo e crimes contra a
humanidade. A conclusão parlamentar não equivale a uma condenação judicial, mas
consolidou documentalmente as acusações de ações e omissões do governo federal
no enfrentamento da pandemia.
Álvaro recomendou ivermectina
a cada 15 dias
Na condição de prefeito de Natal
e médico, Álvaro tornou-se um dos principais defensores locais da ivermectina.
A Prefeitura distribuiu o medicamento nas unidades de saúde, autorizou sua
inclusão entre as opções oferecidas aos pacientes e defendeu o uso profilático,
destinado supostamente à prevenção da doença.
A iniciativa foi contestada por
infectologistas e investigada pelo Ministério Público do Rio Grande do Norte.
Em janeiro de 2021, justamente quando a vacinação começava no País, Álvaro
afirmou que poderia esperar para ser imunizado porque tomava ivermectina.
“Não tenho essa pressa para tomar
a vacina porque estou tomando a ivermectina. Estou protegido”, declarou na
época. O então prefeito também recomendou que pessoas ainda não incluídas nos
primeiros grupos da vacinação tomassem o medicamento a cada 15 dias. Não havia
evidência de que esse procedimento prevenisse a infecção.
Álvaro chegou inicialmente a
anunciar que seria o primeiro a receber a vacina em Natal, alegando ser médico
e integrante de grupo de risco. Após críticas de que poderia furar a fila dos
profissionais que atuavam diretamente no atendimento, desistiu e voltou a dizer
que estava protegido pela ivermectina.
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