Tiroteios, feridos, execuções à
luz do dia, perseguições a veículos roubados, casas metralhadas, famílias
expulsas de suas residências e pichações com siglas de facções criminosas em
bairros periféricos. Essa tem sido a rotina dos mossoroenses nesses quatro
primeiros meses do ano. A cidade vivencia uma guerra entre facções por domínio
de territórios, que afeta a rotina de trabalhadores e até o comércio, impondo
uma sensação constante de insegurança. Com informações da Tribuna do
Norte.
Mossoró encerra o mês de abril
com 48 assassinatos, um aumento de aproximadamente 60% em relação ao mesmo
período de 2025, quando foram registrados 30 homicídios. O avanço da violência
acendeu um alerta nas autoridades e levou o governo estadual a reforçar a
estrutura de investigação, com a designação de dez policiais para atuar
exclusivamente nos casos de homicídios na cidade e na região Oeste,
distribuídos entre três delegacias especializadas.
A dinâmica dos crimes revela um
grau elevado de crueldade. São raptos de jovens ligados a grupos rivais,
submetidos ao “tribunal do crime”, método em que os criminosos filmam e expõem
a vítima a um processo de interrogatório antes da execução. Foi o que aconteceu
com os irmãos Antony Michell Mendonça Medeiros, de 19 anos, e Andrei Mizael
Mendonça Medeiros, de 16. No dia 18 de abril, eles foram sequestrados de sua
casa, no bairro Cidade Oeste. Imagens gravadas dentro do veículo circularam em
redes sociais antes de seus corpos serem encontrados em uma estrada na região
da Alagoinha.
Poucos dias depois, no sábado, 25
de abril, outro caso chocou a cidade. Randerson Jardel Bezerra da Silva foi
sequestrado enquanto estava em um terreiro de umbanda, no bairro Alto da
Pelonha, por homens encapuzados e armados com armas de grosso calibre. Vídeos
de sua execução foram compartilhados em grupos de mensagens. Na segunda-feira,
a mãe do jovem, aos prantos e de joelhos, procurou a delegacia de Polícia Civil
pedindo autorização para enterrar o corpo do filho. O cadáver foi localizado no
dia seguinte, em um terreno no bairro Costa e Silva.
Para o Ministério Público, o
cenário reflete uma disputa territorial cada vez mais acirrada entre
organizações criminosas. O promotor de Justiça com atuação na área criminal, em
especial nos processos de crimes dolosos contra a vida, no Tribunal do Júri da
Comarca de Mossoró, Ítalo Moreira, detalha o quadro atual: “Duas facções
principais atuam na cidade, sendo o Sindicato do RN e o Primeiro Comando da
Capital - PCC. Mas existem outras facções locais com poder reduzido a um ou
outro bairro específico, como os Caveiras e Caio Bonde Cabeça. Além disso, há
registros de uma atuação progressiva da facção cearense Guardiões do Estado -
GDE. Essas facções por vezes selam algumas alianças entre si visando aumentar
poder. há facções que atuam de forma mais local, porém, as maiores facções que
atuam em Mossoró fazem parte de uma estrutura nacional, ainda que em parceria
com facções maiores, como é o caso do Comando Vermelho. O crime organizado é
uma realidade nacional”.
O promotor ressalta que, apesar
dos esforços e das condenações obtidas pelo sistema de Justiça, a reposição
constante de integrantes das facções dificulta a redução dos índices criminais.
“Temos que ser realistas, o número de criminosos envolvidos com o crime
organizado e que estão livres e atuando é bem maior do que aqueles que estão
cumprindo pena. Infelizmente o Estado, através de seus vários órgãos de
atuação, ainda não conseguiu dar um resultado que se possa dizer satisfatório,
apesar de todos os esforços que vêm sendo feitos”, disse.
Ele também aponta que o
enfrentamento ao crime organizado exige medidas estruturais e de longo prazo:
“A efetividade no combate às organizações criminosas é uma luta constante em
todo o Brasil, mas de solução complexa. Muitos, de forma oportunista, pregam
soluções fáceis e rápidas, longe de serem exequíveis. O caminho passa por uma
ação integrada de todos os órgãos responsáveis, melhoramento da estrutura e
tecnologia nas investigações, que são a base para obtenção da responsabilização
criminal, com condenação dos autores de ilícitos, valorização e treinamento
constante dos policiais, que fazem parte da linha de frente no combate ao
crime, identificação e punição rápida e exemplar de agentes públicos que,
desviando-se de suas funções, são cooptados pelo crime organizado e passam a
atuar em seu favor, além de uma legislação que permita resultados mais céleres
e eficazes. Não é algo simples, mas é o caminho.”
Nas ruas de Mossoró, a população
convive com o medo e com a incerteza. A guerra por territórios segue avançando,
deixando um rastro de violência que já marca 2026 como um dos anos mais
críticos da segurança pública no município. Com a escalada da violência, a
tendência é que o primeiro semestre do ano termine com 70 assassinatos.
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