O filme Dark Horse, produzido
para transformar Jair Bolsonaro em personagem heroico, virou um roteiro de
suspeitas que não para de crescer. O capítulo mais recente envolve a empresária
Karina Gama, dona da Go Up Entertainment, produtora
do longa sobre o ex-presidente, e o Instituto Conhecer Brasil (ICB),
entidade presidida por ela e investigada por contratos milionários com dinheiro
público.
Segundo reportagem da Folha de
S.Paulo, o ICB contratou uma empresa de Alex Leandro Bispo dos Santos,
conhecido como Baianão, para instalar pontos de wi-fi em comunidades da capital
paulista. De acordo com órgãos de inteligência da polícia, Santos é apontado
como membro relevante do PCC no estado. A defesa dele nega ligação com a facção
criminosa, e o instituto afirma que desconhecia qualquer vínculo dessa
natureza.
A revelação acrescenta mais uma
camada ao caso que já envolvia suspeitas
sobre contrato público em São Paulo, possível desvio de recursos,
financiamento do filme por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e a
atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos contra autoridades brasileiras.
No Supremo Tribunal Federal
(STF), o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) pede que a investigação
avance justamente sobre a conexão entre o dinheiro do Dark Horse, a família
Bolsonaro e a ofensiva internacional de Eduardo.
Subcontratado tem condenações
e está preso
A empresa de Alex Santos, a
Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., também conhecida como Urban
Connect, foi subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil no âmbito do projeto
de wi-fi gratuito firmado com a Prefeitura de São Paulo. O contrato previa a
implantação de 2 mil pontos de internet em comunidades das zonas oeste e sul da
capital paulista e poderia chegar a R$ 12 milhões.
Ainda segundo a Folha, um extrato
aponta pagamento de R$ 2 milhões à empresa em julho de 2025. Santos acumula
condenações por roubo, passou por diversos presídios do sistema paulista e está
preso desde o fim de 2025 sob suspeita de feminicídio. A defesa afirma que ele
nega integrar o PCC e também nega a acusação de feminicídio.
O ICB informou que a contratação
da empresa levou em conta critérios técnicos, operacionais e documentais, além
da experiência em áreas de alta complexidade, como comunidades. A entidade
disse ainda que a companhia estava regular à época e que não havia impedimento
legal para a contratação.
A Prefeitura de São Paulo,
comandada por Ricardo Nunes (MDB), afirmou que sua relação jurídica se dá
exclusivamente com o Instituto Conhecer Brasil e que não possui vínculo
contratual direto com a empresa subcontratada ou com seu administrador.
De produtora bolsonarista a
alvo de investigação
Karina Gama ganhou projeção
nacional por ser dona da Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse,
cinebiografia de Jair Bolsonaro. O filme, que o bolsonarismo tentou vender como
peça de exaltação política do ex-presidente, acabou se transformando em um problema
para a própria extrema direita.
No início de junho, a Polícia
Civil de São Paulo cumpriu mandados em endereços ligados a Karina, à produtora,
ao Instituto Conhecer Brasil e à Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.
A apuração investiga irregularidades em contrato de R$ 108 milhões do programa
WiFi Livre SP, firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o ICB.
A investigação apura suspeitas de
fraude, irregularidades na execução do serviço e possível desvio de recursos
públicos. Uma das linhas investigadas é se parte do dinheiro do contrato com a
prefeitura teria sido desviada para a produção do filme sobre Bolsonaro. A
defesa de Karina nega.
O caso também ganhou novo peso
depois que a Agência Pública revelou que uma auditoria do Tribunal de Contas da
União (TCU), feita em 2012, apontou o Instituto Conhecer Brasil como uma
entidade “de fachada”. Anos depois, sob a presidência de Karina, o mesmo
instituto assinou contrato milionário com a gestão Nunes para fornecer internet
gratuita em comunidades vulneráveis de São Paulo.
O fio que chega ao Banco
Master
O escândalo em torno de Dark
Horse não começou pelo contrato de wi-fi. O filme entrou no centro da crise
política depois que reportagens do The Intercept Brasil revelaram conversas e
documentos sobre negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ex-controlador
do Banco Master, para bancar a produção.
Segundo o Intercept, o valor
negociado para financiar o filme chegou a US$ 24 milhões, cerca de R$ 134
milhões na cotação da época. A reportagem também apontou que ao menos US$ 10,6
milhões, equivalentes a cerca de R$ 61 milhões, teriam sido efetivamente pagos
ao fundo ligado à produção.
Outro ponto sensível envolve
Eduardo Bolsonaro. Documentos revelados pelo Intercept apontaram que o
ex-deputado atuou como produtor-executivo de Dark Horse, com responsabilidades
relacionadas à gestão financeira do projeto. O material também indicou que parte
dos recursos teria sido enviada aos Estados Unidos para um fundo controlado por
aliados de Eduardo.
O Intercept informou ainda que um
comprovante bancário registrou transferência de US$ 2 milhões para o Havengate
Development Fund LP, fundo sediado no Texas e controlado por Paulo Calixto,
advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. Eduardo nega ter recebido dinheiro
negociado para o filme.
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