Vicente de Augustinho tocava o
Bar Bagdá na rua atrás da igreja. Duas qualidades eram sua marca registrada: a
fanfarronice e a indelicadeza com a freguesia. Com relação a primeira
característica, os frequentadores, já acostumados com as bravatas mentirosas,
não as levavam a sério. Era como se servissem para compor o cenário do
ambiente. Mas vez por outra aparecia um freguês não habitual. No início o
forasteiro ouvia com interesse as estórias de Vicente. Depois, já demonstrava
certa incredulidade. Depois passava a irritação. Um deles, meio tirado a
valente, pra tirar a limpo a conversa, pegou Vicente pelo colarinho, suspendeu
do solo o auto proclamado herói e perguntou: “Você arroxa mesmo seu fdp?”.
Vicente, com os pés balançando no ar e a voz embargada mal conseguiu responder: “Arroxo, mas dependendo da situação também afrouxo”.
Fui testemunha da segunda virtude
de Vicente. Numa ocasião chegamos eu e meu irmão Guido no Bar. Pedimos uma
cerveja e tira gosto de avoete. Nisso, senta na mesa ao lado o radialista Marco
Antônio da recém inaugurada Radio Centenário. Por curiosidade começamos a
solicitar do ilustre comunicador detalhes de sua atividade, como era sua
rotina, qual a audiência da rádio etc. Marco Antônio então aproveitou a
oportunidade para desfiar um verdadeiro rosário de lamentações sobre sua
profissão. E concluía melancólico: “Fazer rádio no interior é uma barra”. Para
aliviar um pouco sua frustação pediu ao auxiliar do Vicente uma cerveja. O
rapaz foi até o balcão e transmitiu o pedido ao dono do Bar. Foi aí que
Vicente, indiferente ao infortúnio e agruras do freguês , perguntou em alto e
bom som para toda cidade ouvir: “Marco Antônio, você tá com dinheiro?” Não sei
se foi exceção , mas nesse dia Marco Antônio tinha dinheiro.
Tempos depois, já desfeito o Bar
Bagdá , estava Vicente de Augustinho em companhia de Juninho de Duquinha
degustando uma pinga na área lateral do Bar Chaplin. De repente o ar foi
inundado por um delicioso cheiro de bolacha, vindo da padaria de Jacy Amorim,
ao lado. Vicente foi até a padaria solicitar ao Jacy uma pequena porção da
iguaria a título de tira gosto. Quando a dupla começou a desfrutar do presente
apareceu a surpresa indigesta: duas bolachas exibiam, longos fios de cabelo.
Vicente recolheu o achado macabro, voltou a padaria e falou para o dono: “Jacy,
obrigado pela oferta”. Em seguida , segurando em cada mão uma bolacha pendurada
pelo cabelo, completou: “Agora esses brincos eu dispenso. Gosto da minha beleza
ao natural”.
Vicente de Augustinho tocava o
Bar Bagdá na rua atrás da igreja. Duas qualidades eram sua marca registrada: a
fanfarronice e a indelicadeza com a freguesia. Com relação a primeira
característica, os frequentadores, já acostumados com as bravatas mentirosas,
não as levavam a sério. Era como se servissem para compor o cenário do
ambiente. Mas vez por outra aparecia um freguês não habitual. No início o
forasteiro ouvia com interesse as estórias de Vicente. Depois, já demonstrava
certa incredulidade. Depois passava a irritação. Um deles, meio tirado a
valente, pra tirar a limpo a conversa, pegou Vicente pelo colarinho, suspendeu
do solo o auto proclamado herói e perguntou: “Você arroxa mesmo seu fdp?”.
Vicente, com os pés balançando no ar e a voz embargada mal conseguiu responder: “Arroxo, mas dependendo da situação também afrouxo”.
Texto de João Vianney Gurgel Fernandes
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