Revelação de registros
telefônicos nesta terça-feira (18) mostra a intensidade dos contatos entre o
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do
liquidado Banco Master, durante o mês de setembro de 2025.
Os dados apontam que o
parlamentar e o empresário conversaram por telefone ao menos cinco vezes no
período, totalizando mais de seis minutos de ligação. As chamadas ocorreram em
momentos marcados por cobranças diretas e pressão pelo envio de recursos financeiros
destinados ao financiamento do filme ficcional da biografia sobre Jair
Bolsonaro, intitulado Dark Horse.
As informações foram analisadas
pelo jornalista Paulo Motoryn, da newsletter Noites Húngaras, e divulgadas pelo
portal Brasil 247. Os registros capturam chamadas realizadas via aplicativo, o
que representa o patamar mínimo de contatos entre os dois, uma vez que ligações
efetuadas pela rede telefônica convencional não ficam gravadas do mesmo modo no
dispositivo. As conversas antecederam novos repasses de capital ao exterior
supostamente direcionados ao projeto cinematográfico.
No dia 8 de setembro, Flávio
Bolsonaro iniciou uma ligação de dois minutos e 38 segundos às 22h12, logo após
enviar um áudio cobrando uma definição sobre o envio dos valores. Na mensagem
de texto prévia, o senador escreveu ao ex-banqueiro que preferia mandar áudio
para que o interlocutor ouvisse com calma, usando termos de que revelam
proximidade.
Mais tarde, no dia 16 de
setembro, Vorcaro efetuou uma chamada de 42 segundos via aplicativo, após
indícios de tentativas prévias pela rede tradicional. Já no dia 24 de setembro,
o parlamentar discou três vezes para o empresário em horários distintos: às
13h38, 17h46 e 22h, em meio às tratativas para o agendamento de um encontro
presencial.
A proximidade entre o filho do
ex-presidente e o dono do Banco Master veio a público em 13 de maio de 2026, em
reportagem do veículo The Intercept Brasil assinada por Motoryn e equipe, na
série intitulada “Vaza Flávio”.
Com base em mensagens, áudios e
documentos, a apuração revelou que Vorcaro se comprometeu a repassar US$ 24
milhões (cerca de R$ 134 milhões na cotação da época) para a produção do
longa-metragem. Do total prometido, ao menos US$ 10,6 milhões (aproximadamente
R$ 61 milhões) foram efetivamente transferidos entre fevereiro e maio de 2025.
As operações envolveram empresas ligadas ao banqueiro e tiveram como destino
final o fundo Havengate Development Fund LP, sediado nos Estados Unidos e
controlado por aliados do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), incluindo o
advogado Paulo Calixto.
A linha de investigação de que o
recurso servia para a manutenção de Eduardo Bolsonaro no Texas, EUA, não está
descartada.
O histórico das negociações
mostra que o primeiro contato entre as partes ocorreu em dezembro de 2024, com
intermediação do empresário Thiago Miranda.
Flávio Bolsonaro tratou
diretamente dos aportes e cobrou o envio das parcelas em atraso. Em 16 de
novembro de 2025, véspera da prisão de Vorcaro pela Polícia Federal no
Aeroporto Internacional de Guarulhos, o senador enviou mensagem afirmando que
estaria sempre ao lado do empresário e pedindo uma posição sobre os recursos.
Fontes da Polícia Federal
confirmaram a autenticidade das mensagens extraídas do telefone celular
apreendido com o ex-banqueiro. Após a divulgação dos fatos, o senador admitiu a
relação e os pedidos de recursos, mas argumentou que as tratativas se tratavam
de patrocínio privado para uma obra audiovisual privada, sem uso de recursos
públicos ou incentivos da Lei Rouanet.
O parlamentar negou a obtenção de
vantagens indevidas, a intermediação de negócios com a gestão pública ou o
recebimento pessoal de valores. Inicialmente, contudo, o senador havia negado o
contato e a solicitação de fundos, alegando posteriormente cláusula de
confidencialidade e sustentando que conheceu o empresário antes de acusações
públicas virem à tona. Flávio Bolsonaro também confirmou ter se encontrado
presencialmente com Vorcaro após a primeira prisão do empresário, quando este
já utilizava tornozeleira eletrônica, sob a alegação de encerrar o assunto do
filme.
Daniel Vorcaro figura como o
principal investigado no caso do colapso do Banco Master, apontado pelas
autoridades como um esquema de fraude financeira com rombo bilionário em fundos
de previdência e investimentos. As cobranças feitas por Flávio Bolsonaro
ocorreram no mesmo período em que as investigações sobre a instituição
financeira ganhavam transparência pública, entre agosto e setembro de 2025.
Em julho de 2026, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de inquérito pela Polícia Federal para apurar os repasses feitos ao projeto do filme, atendendo a parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Questionada pela apuração
jornalística sobre o teor específico das ligações feitas em setembro de 2025, a
assessoria do parlamentar não apresentou esclarecimentos nem forneceu a
prestação de contas detalhada com notas fiscais sobre a aplicação dos recursos
na produção cinematográfica.
O caso segue sob investigação
policial e desdobramentos judiciais.
Registe-se aqui com seu e-mail



ConversãoConversão EmoticonEmoticon