A compra de 20 respiradores
pulmonares pela Prefeitura do Natal durante a gestão do ex-prefeito Álvaro
Dias (PL) é alvo de apuração em uma ação penal na Justiça Federal. Os
equipamentos foram adquiridos em 2020, durante a pandemia de Covid-19, por R$
2,16 milhões. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), o negócio provocou um
prejuízo de pelo menos R$ 1,43 milhão aos cofres públicos.
Respondem ao processo o
ex-secretário adjunto de Saúde de Natal Vinícius Capuxu de Medeiros e o
empresário Wender de Sá, proprietário da Spectrum Medic Comércio e Serviços
Ltda., empresa responsável pelo fornecimento dos aparelhos. Álvaro Dias,
atualmente candidato ao Governo do Estado pelo PL, não figura entre os
acusados.
A ação penal é resultado da
Operação Rebotalho, deflagrada em julho de 2021 pela Polícia Federal com
participação da Controladoria-Geral da União (CGU) e do MPF. Documentos e
objetos foram apreendidos naquela ocasião.
A denúncia do MPF foi aceita pela
14ª Vara Federal do Rio Grande do Norte em novembro de 2021, depois de o juiz
Francisco Eduardo Guimarães Farias considerar que havia indícios suficientes
para a abertura do processo. Desde então, o processo tramita, com a análise de
questionamentos apresentados pelas defesas dos réus, que tentam anular parte da
operação.
Vinícius Capuxu e Wender de Sá
foram denunciados por suposta dispensa ilegal de licitação qualificada e
peculato qualificado. O empresário também responde pela acusação de fraude à
execução de contrato administrativo. O recebimento da denúncia não representa
condenação, e as responsabilidades ainda dependem do julgamento do mérito da
ação.
De acordo com o MPF, o
procedimento de dispensa de licitação teria sido montado e direcionado para
favorecer a Spectrum. A proposta da empresa foi apresentada em 11 de maio de
2020, antes da formalização do processo de aquisição. O Contrato nº 129/2020, no
valor de R$ 2,16 milhões, foi assinado em 28 de maio, mas as notas fiscais
haviam sido emitidas no dia anterior.
A decisão judicial registra ainda
que o projeto básico simplificado, embora datado de 14 de maio, só foi aprovado
em 3 de junho, depois da dispensa, da assinatura do contrato e da emissão das
notas fiscais. Um parecer da assessoria jurídica da Secretaria Municipal de
Saúde (SMS) também havia recomendado a complementação da estimativa de preços,
mas a ressalva não teria sido atendida antes da contratação.
A pesquisa de preços utilizada no
processo apresentava somente duas referências. A Spectrum ofereceu cada
respirador usado por R$ 108 mil, enquanto a Top Lum apresentou o valor de R$
412 mil por um equipamento novo. O representante da segunda empresa relatou que
recebeu solicitações sem descrição técnica suficiente para formular ofertas
direcionadas ao objeto pretendido pela Prefeitura.
Segundo a Nota Técnica nº
3154/2020 da CGU, as propostas foram obtidas antes da abertura formal da
dispensa. Para o órgão de controle, a sequência indicaria que primeiro foram
escolhidos os documentos que integrariam o processo e somente depois ocorreu a
autuação, situação classificada como indício de montagem do procedimento.
Equipamentos antigos
Os documentos reunidos durante a
investigação também apontaram que quase todos os respiradores fornecidos tinham
mais de 10 anos de fabricação ou uso. Havia aparelhos originalmente instalados
em hospitais em 2006, 2007 e 2010. Dois deles haviam sido vendidos
anteriormente como bens em desuso e sem funcionamento regular, enquanto outro
havia sido encaminhado a um depósito de materiais obsoletos.
Informações prestadas por uma das
fabricantes indicaram que seis equipamentos possuíam números de série
adulterados e não foram reconhecidos como autênticos. A acusação sustenta que
parte dos aparelhos tinha origem não esclarecida, havia sido recondicionada e
foi apresentada à Prefeitura como material apenas usado ou seminovo.
Cinco respiradores foram
devolvidos pelo Hospital Municipal de Natal porque, segundo documentos citados
na decisão, não estavam em bom estado nem eram adequados para uso na unidade.
Uma planilha do Hospital de Campanha também mostrou que vários equipamentos
permaneciam em manutenção em 2021. Dois aparelhos foram classificados pela
empresa responsável pelos reparos como obsoletos, com dificuldade para
reposição de peças.
A suspeita de sobrepreço foi
baseada na comparação com outras operações realizadas no mesmo período. Notas
fiscais apreendidas na sede da Spectrum mostraram que a empresa vendeu
respiradores por valores entre R$ 28 mil e R$ 60 mil nos meses anteriores à contratação
com a Prefeitura, mas cobrou R$ 108 mil por unidade em Natal.
A CGU também identificou que o Governo do Estado havia comprado respiradores novos e com especificações técnicas superiores por R$ 53.964,27 cada. Em outra aquisição, a Secretaria Estadual de Saúde (Sesap) pagou R$ 107 mil por unidade nova. A partir dessas e de outras referências, o órgão estimou um sobrepreço de pelo menos R$ 1.433.340.
Em depoimento à Polícia Federal,
Vinícius Capuxu negou participação em atos ilícitos. Ele confirmou que visitou
a sede da Spectrum, em Aparecida de Goiânia (GO), acompanhado do então
secretário municipal de Saúde, George Antunes, e que assinou documentos
relacionados à contratação. Wender de Sá também prestou depoimento e alegou que
os custos dos aparelhos incluíram reparos, serviços técnicos e o
recondicionamento dos equipamentos.
Investigação e outro lado
A PF, o MPF e a CGU entraram no
caso porque a compra envolveu recursos federais. O município de Natal recebeu
mais de R$ 350 milhões em 2020 do Fundo Nacional de Saúde (FNS). Desse valor,
R$ 107,6 milhões foram destinados especificamente para ações de prevenção e
combate ao coronavírus.
“A má aplicação desses recursos
dificulta ainda mais o enfrentamento da pandemia, uma vez que diminui o já
escasso orçamento público necessário para as ações de saúde necessárias para o
bom atendimento às vítimas de Covid-19”, considerou a CGU.
Em nota emitida quando a Operação
Rebotalho foi deflagrada, a Prefeitura do Natal negou irregularidades. A gestão
municipal enfatizou que a aquisição dos equipamentos ocorreu a partir de
levantamento de preços de mercado, a fim de comprovar que a aquisição se daria
do modo mais vantajoso e econômico possível, “como de fato ocorreu, bastando
comparar os preços ofertados pelos concorrentes.”
A gestão contestou, ainda, a
informação de que apenas duas referências foram apresentadas na pesquisa de
preço. “Na verdade, ao contrário do que foi interpretado pela CGU, a Empresa
Lemonde, ofertou, sim, respiradores idênticos, da marca Philips, ao preço
unitário de R$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil reais), conforme e-mails
fornecidos à CGU pela própria SMS/Natal”, disse a Prefeitura, à época.
No que diz respeito à
funcionalidade dos respiradores, em que paira uma acusação de que os mesmos
aparelhos seriam inservíveis, a Prefeitura destacou que os aparelhos estavam
funcionando perfeitamente, “inclusive sendo o aparato para o salvamento de inúmeras
vidas humanas.”
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