A Justiça Eleitoral questionou
nove pesquisas eleitorais registradas no RN em 2026, distribuídas entre os dois
principais pré-candidatos ao Governo do Estado. Mas só duas dessas pesquisas
saíram do campo administrativo e viraram caso de polícia — e ambas traziam
Álvaro Dias (PL) em primeiro lugar.
São a RN-09520/2026, do instituto
Ipsensus, e a RN-08092/2026, da Média Inteligência em Pesquisa. A primeira dava
32,5% a Álvaro, 27,3% a Allyson Bezerra (União) e 16,8% a Cadu Xavier (PT). A
segunda apontava 32,1%, 27,5% e 18,1%, na mesma ordem. As duas foram relatadas
pela desembargadora eleitoral Sulamita Bezerra Pacheco, e as duas terminaram no
Ministério Público Eleitoral e na Polícia Federal.
O que separa uma suspensão de um
inquérito
A distinção é o dado central
desta cobertura. Suspender a divulgação de uma pesquisa é decisão
administrativa: a Justiça entende que o registro está incompleto ou que a
amostra não corresponde ao que foi informado, e manda tirar os números do ar
até que se esclareça. Isso aconteceu oito vezes no Estado este ano, com
pesquisas dos dois lados.
Inquérito criminal é outra coisa.
Ele parte da suspeita de que os dados não foram apenas mal coletados, mas
inventados. Nos dois casos abertos no RN, os crimes apontados são divulgação de
pesquisa fraudulenta, falsidade ideológica eleitoral e prática de atos para
retardar ou dificultar a fiscalização dos partidos.
O caminho até lá começou em 15 de
julho, quando a desembargadora deferiu ao Republicanos o acesso aos microdados
da pesquisa do Ipsensus. Em 28 de julho, concluiu que a ordem tinha sido
cumprida apenas em parte e que houve possível embaraço à fiscalização. Em 31 de
julho, remeteu os autos à Procuradoria Regional Eleitoral. Em 5 de agosto veio
a determinação de abertura de inquérito na Polícia Federal.
A análise da base entregue à
Justiça, provocada por representação da Federação União Progressista, apontou
volumes de coleta que os partidos classificaram como materialmente impossíveis:
um único entrevistador teria registrado sozinho 620 entrevistas presenciais em
cinco dias, e outro, 477 coletas cobrindo 45 municípios. Foram identificados 11
questionários com identificadores repetidos, somando 24 registros suspeitos,
ausência de dados de geolocalização por GPS, uma equipe de seis entrevistadores
operando nove códigos distintos e um estatístico com dois registros diferentes
no conselho da categoria. Há ainda a suspeita, registrada nos autos, de que o
Ipsensus estivesse operando como empresa interposta da Média.
No caso da Média, contratada pelo
portal O Potengi por R$ 20 mil, o procurador regional eleitoral Fernando Rocha
de Andrade pediu a abertura de inquérito em 3 de agosto. Segundo o pedido, 450
entrevistas teriam sido realizadas em 2 de julho, um dia antes de a pesquisa
ser registrada na Justiça Eleitoral, e as coordenadas de geolocalização
apontavam para pontos a dezenas ou centenas de quilômetros dos municípios
declarados.
Nenhuma das duas pesquisas teve a
divulgação suspensa. As duas seguem formalmente registradas.
As quatro pesquisas com Álvaro à
frente que a Justiça derrubou
Além dos dois inquéritos, quatro
pesquisas que traziam Álvaro Dias em primeiro lugar foram suspensas ou
declaradas irregulares.
Três são do mesmo instituto, o
Veritá. A RN-02256/2026, que dava 40,9% ao ex-prefeito, e a RN-04097/2026 foram
suspensas em 13 e 15 de maio pelo juiz Marcello Rocha Lopes, por
inconsistências metodológicas e por um cronograma que previa divulgação antes do
fim da coleta. Em 17 de junho, em representação de PSD e Republicanos, as duas
renderam multa de R$ 106.410. A terceira, a RN-06276/2026, com 41,6% para
Álvaro, foi suspensa em 12 de junho pela juíza Francimar Dias, que apontou uma
amostra com 34% de entrevistados com ensino superior, contra cerca de 14% nos
demais institutos.
A quarta é a RN-07670/2026, do
Affare Institute, contratada pela O2 Soluções, que dava 32,6% a Álvaro. Em 4 de
agosto, o Pleno do TRE-RN a declarou irregular sob relatoria do desembargador
eleitoral Eduardo Pinheiro, com multa de R$ 53.205. A corte constatou que o
plano amostral previa 73,9% dos entrevistados com renda de até um salário
mínimo, mas apenas 37,9% estavam nessa faixa.
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