Um período crucial da carreira de Flávio Bolsonaro foi acompanhado de perto – e registrado – por um amigo que desfrutou da confiança dele, mas que há três anos decidiu emparedá-lo ao cobrar um “acerto de contas”. Do arsenal usado nas ameaças, contidas de maneira inexplicada meses depois, há uma série de elementos comprometedores para o presidenciável do PL que o PlatôBR revela nesta reportagem, como orgias bancadas com dinheiro de origem suspeita, mimos de luxo recebidos de parceiros lobistas e até uma operação para levar interesses de um “cliente” a Kassio Nunes Marques, ministro do STF.
O senador Flávio Bolsonaro, herdeiro principal do espólio
eleitoral do pai, é daqueles políticos que têm um trabalho danado para
administrar segredos do passado. No caso do presidenciável do PL nas eleições
deste ano, uma parte significativa desses segredos vem do período em que Jair
Bolsonaro esteve no Palácio do Planalto. A depender do assunto a ser
destravado em Brasília, o senador era a pessoa certa a ser procurada na então
primeira-família. Em razão disso, ele manteve relações estreitas com gente de
todo tipo interessada em solucionar problemas onde quer que a influência de
quem estava no poder àquela altura pudesse alcançar: em ministérios, na CVM
(Comissão de Valores Mobiliários), no Cade (Conselho Administrativo de Defesa
Econômica) ou mesmo nos tribunais.
A condição de resolvedor-geral da
República colocou o filho 01 de Bolsonaro em uma delicada posição,
especialmente agora, como candidato à Presidência. Pontas soltas desse passado
recente se transformam, por óbvio, em armas potentes ou em objeto de chantagem
na forma de dossiês ou, simplesmente, de conversas interessadas de pé de
ouvido. Em suma, o presidenciável Flávio é refém das histórias que o senador
Flávio, então filho do presidente, protagonizou nos bastidores do governo
quando ainda nem imaginava que poderia ter a chance de sentar-se, também, na
cadeira presidencial.
Algumas dessas histórias, ainda
não contadas e que o PlatôBR revela com exclusividade nesta reportagem, são
desdobramentos da complicada sociedade que Flávio Bolsonaro teve em uma loja de
chocolates que funcionou num shopping da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A
franquia da Kopenhagen, como se sabe, tornou-se peça-chave nas investigações
das célebres rachadinhas, parte de um passado ainda mais distante da história
do senador, quando ele era deputado estadual no Rio. Após promotores
fluminenses esquadrinharem o negócio, como parte de estrutura destinada a lavar
o dinheiro que era descontado do salário mensal dos funcionários do gabinete, a
loja foi fechada. Restou, porém, uma relação mal resolvida entre Flávio
Bolsonaro e Alexandre Ferreira Dias Santini, um amigo do peito que o agora
presidenciável alçou, quando ainda era deputado no Rio, à condição de sócio na
Bolsotini Chocolates e Café Ltda, razão social da chocolateria.
Há pouco mais de três anos,
sentindo-se abandonado, o ex-sócio rompeu com Flávio Bolsonaro e deflagrou uma
cruzada para não ficar de mãos abanando. Queria dinheiro. E, pelo caminho, foi
deixando muitos segredos que dividiu com Flávio enquanto a amizade e a
sociedade na loja de chocolates estiveram de pé. Uma parte da guerra já é conhecida. Outra, porém, está sendo contada agora,
pela primeira vez. Das mensagens de texto, áudios, documentos e fotos que
Santini guardou – e que entregou a algumas figuras-chave em Brasília no período
em que estava em litígio com o antigo amigo – pululam histórias comprometedoras
para o candidato do PL ao Planalto, como orgias com garotas de programa
bancadas com dinheiro de origem duvidosa, uma curiosa confissão de Flávio de
que errou com a família ao participar desses convescotes, mimos de valores
vultosos custeados por parceiros que faziam lobby junto ao governo do pai e,
ainda, um xeque-mate envolvendo o gabinete do ministro Kassio Nunes Marques, do
STF, que fez Flávio finalmente se render às ameaças do ex-sócio.
As histórias a seguir, que
mostram por dentro a intensa pressão a que o agora candidato ao Planalto esteve
submetido em razão de seus segredos, são ilustrativas do jogo de chantagens que
ronda os poderosos quando eles têm algo a esconder.
***
Crise em casa
A amizade entre Flávio e Alexandre Santini ia bem até a campanha eleitoral de
2022, quando Jair Bolsonaro tentou, sem sucesso, ser reeleito presidente. O
rompimento se deu por dinheiro. O antigo amigo alegava que o senador lhe devia.
A guerra, então, se instalou. O ápice foi, digamos, inusitado. Santini procurou
a mulher de Flávio, a dentista Fernanda Bolsonaro, para contar detalhes do que
o amigo fazia quando estava longe da família. Contar, na verdade, é força de
expressão. Além dos relatos, ele mostrou a Fernanda provas de que Flávio tinha
o hábito de participar de festinhas privês com garotas de programa. Era o
próprio Santini quem organizava vários desses convescotes, inclusive à custa do
dinheiro que circulava com certa facilidade entre eles desde os tempos da
sociedade na loja de chocolates – um dinheiro que, como mostraram as
investigações do Ministério Público do Rio, depois arquivadas por decisão do
Poder Judiciário, vinha das rachadinhas e de outras transações nebulosas.
Por um longo período, Santini
havia sido uma espécie de administrador do caixa paralelo de Flávio. Nesse
papel, não apenas cuidava de despesas que o filho 01 de Bolsonaro não podia
assumir diretamente como, na condição de amigo-irmão, se encarregava de tarefas
pouco ortodoxas nas quais não era conveniente que um político conhecido
aparecesse, como a própria organização das festinhas privês. Pois foi graças às
tarefas sensíveis que executava que o ex-sócio colecionou as imagens e
mensagens que, no auge da crise, levou ao conhecimento de Fernanda Bolsonaro.
Eram fotos de mulheres, prints combinando encontros secretos e outras tantas
evidências. O impacto foi imediato. E brutal. A iniciativa de Santini provocou
um terremoto, àquela altura, no casamento de Flávio. A confusão foi tão grande
que assustou a cúpula da campanha de Jair Bolsonaro à reeleição. A turma do
deixa-disso entrou em campo para segurar o ex-sócio, mas só conseguiu êxito por
um período. Santini voltaria à carga logo depois, e por uma via curiosa: a
própria Fernanda Bolsonaro. Ele seguia próximo à mulher de Flávio. Era paciente
do consultório odontológico dela, em um centro clínico do Plano Piloto de
Brasília, e nas sessões periódicas de manutenção do aparelho dentário,
aproveitava para enviar recados a Flávio Bolsonaro cobrando o “acerto de
contas”.
Garotas no Hyatt
No arsenal de Alexandre Santini havia elementos contundentes. Como mensagens
que ele enviara para uma agenciadora de garotas de programa no Rio de Janeiro
combinando encontros com a presença Flávio, a quem se referia sempre como “meu
filho”. Os convescotes eram, por assim dizer, coletivos, com a participação do
próprio ex-sócio e, por vezes, de outros amigos da dupla que eram convidados.
Junto com as mensagens de texto, havia fotos – várias delas, por sinal,
impublicáveis. Santini dizia que a preferida de Flávio, ou “a namoradinha”, nas
palavras dele, era a própria agenciadora.
“Fala bb, tudo bem? Eu estava
viajando de férias e voltei hj. Vamos marcar outra festinha igual a do grand
hyatt. Com os mesmos amigos meus… meu filho + João Pedro. Vc arruma as
meninas?”, escreveu Santini à agenciadora em uma das oportunidades, por WhatsApp.
“Oie. Td bem? São 3 meninas então? Quando?”, respondeu a mulher. Santini
forneceu os detalhes: “Vc e mais 3 meninas. Só preciso confirmar a data e
horário com os amigos. Precisa ser tudo sigiloso. Pois nessa época de eleição
tá Fodaaaa”. “Quer que perfil?”, a mulher quis saber. Ele, mais do que
depressa, tirou a dúvida, em uma mensagem que deixa evidente que aquele tipo de
encontro era algo rotineiro: “Tipo gostosa! Vc conhece o q a gente gosta. Me
manda as fotos. Tem q ser novidade. Até amanhã te ligo confirmando o local e
data certa. Obrigado bb”.
O Grand Hyatt, hotel cinco
estrelas situado entre o mar e a Lagoa de Marapendi, na Barra da Tijuca, era um
dos locais escolhidos para os encontros do grupo. Algumas das fotos mostradas
pelo ex-sócio à mulher de Flávio foram tiradas lá, em um dos apartamentos mais
exclusivos oferecidos aos hóspedes, com diária de R$ 3 mil, ampla varanda e
vista panorâmica da região. Não era o único local que costumava ser usado nas
farras, porém. Havia outros, inclusive em Brasília. A crise na família perdurou
por um período considerável, de semanas. Tempos depois, Fernanda Bolsonaro
aceitou as desculpas de Flávio. Mas a confusão não terminou.
Willer Tomaz, o onipresente
A certa altura da briga que o ex-sócio travava com Flávio Bolsonaro, insistindo
para que houvesse o “acerto de contas”, coube à própria Fernanda, a mulher do
senador, fazer o meio de campo. Flávio, naquele momento, até topava conversar.
Mas era Santini que não queria. Após Fernanda tentar marcar uma conversa, ele
responde: “Como falou ao telefone, que o Flávio quer falar comigo, então
solicito que ele ou o advogado dele entre em contato com meu advogado”,
respondeu por mensagem. Fernanda liga. Insiste. Pede para Santini passar na
casa do casal. “Infelizmente não consigo. Não tenho nada para falar com o
Flávio, e se ele quiser tratar algo comigo, pede para ele falar com meu
advogado”, reitera o ex-sócio.
Fernanda Bolsonaro, assim como
Flávio, sabia do potencial explosivo do que Santini tinha em mãos. E queria uma
solução amigável. As tentativas de negociar um acordo naquele momento, porém,
não prosperaram. “Que pena! Conversei muito com ele. Achava válido que vocês
tivessem uma conversa”, lamentou a dentista.
Na crise, também entrou em cena
um personagem onipresente na vida de Flávio Bolsonaro e em tramas cabeludas da
crônica político-policial: o advogado Willer Tomaz, amigão do senador cujo nome
é parte integrante de alguns dos maiores escândalos que estouraram em Brasília
nos últimos dez anos. Tomaz chegou a ser preso em 2017 em uma operação que se
desdobrou do explosivo acordo de delação premiada dos irmãos Joesley e Wesley
Batista, da JBS. Hoje, ele é investigado no igualmente rumoroso caso das
fraudes no INSS. O advogado é dono de um rancho nos arredores de Brasília que,
até tempos atrás, Flávio e outras figuras conhecidas frequentavam com
regularidade. Willer Tomaz também é um dos proprietários do jato Legacy no qual
o presidenciável viajou de Fort Lauderdale, na Flórida, até Brasília, em
janeiro de 2025. O avião, que tinha como sócio àquela altura o ex-banqueiro
Daniel Vorcaro, pivô do maior escândalo financeiro da história nacional, é o
mesmo que em agosto do ano passado serviu ao ministro Alexandre de Moraes, do
STF.
Pois bem. Em 2023, foi o
escritório de Willer Tomaz que Flávio Bolsonaro acionou para tentar colocar um
fim na querela com o ex-sócio – o que envolvia, evidentemente, pagar os valores
que Alexandre Santini cobrava. Como estava sem falar com Flávio, Santini enviou
uma mensagem a Fernanda Bolsonaro. “Meus advogados foram procurados pelo
escritório do Willer Tomaz, que disse agir em nome do Flávio para resolver a
situação. Começaram a tratar sobre um acordo envolvendo a questão da loja, mas
na hora de resolver, ele sempre posterga ou não dá uma resposta consistente. Se
o Willer está representando o Flávio, preciso de uma resposta definitiva sobre
o acordo até amanhã. Se realmente não houver interesse em fazer acordo, vamos
encerrar esse contato com o Willer e seguir com os procedimentos. Aguardo seu
retorno e obrigado”, escreveu Alexandre Santini a Fernanda, que, naquele
momento, evitou estender a conversa. “Estou totalmente por fora desse assunto.
Melhor conversar com os advogados mesmo”, disse ela.
Seguir com os outros
procedimentos tinha um significado claro: Santini ensaiava contar o que sabia
sobre Flávio Bolsonaro aos órgãos de investigação e levar a cobrança à Justiça,
sob a alegação de que havia pendências financeiras a serem sanadas desde o encerramento
da sociedade na loja de chocolates. A ameaça estava posta – e, ao menos uma
parte dela, exposta publicamente. Santini chegou a postar nas redes sociais uma
mensagem que, para Flávio e seu círculo mais íntimo, não carecia de mais
explicações: “Não adianta tentar escapar, tudo é questão de tempo, pois provas
não faltam para seus inúmeros ‘crimes na política’ que vão te levar para a
PRISÃO”, publicou em um post, sem mencionar o nome do senador. Enquanto
escalava a pressão, Santini abriu outra frente. Em 28 de setembro de 2023,
enviou ao gabinete de Flávio uma notificação extrajudicial cobrando R$ 1,4
milhão. A alegação de que ficou no prejuízo após o fechamento da chocolateria
na qual os dois eram sócios foi colocada no papel, em uma peça que cutucava
Flávio: ao detalhar os investimentos iniciais de cada um no negócio, ele fez
questão de dizer que o filho 01 de Jair Bolsonaro aportou R$ 200 mil em
dinheiro vivo. Flávio não respondeu a notificação.
“Erros que eu cometi”
Desde o rompimento entre os antigos sócios, a novela foi ganhando contornos
dramáticos. Após Santini contar a Fernanda Bolsonaro as histórias das orgias, e
quando já estava amainando a crise familiar que a atitude havia gerado, Flávio
Bolsonaro escreveu ao ex-sócio e ex-amigo para pedir que ele se afastasse
“imediatamente” de sua mulher. Ironicamente, a mensagem traz uma espécie de
confissão. Flávio admite que fez “muitas escolhas erradas” e diz que não iria
“errar nunca mais” com a própria família. O primogênito de Jair Bolsonaro, cujo
contato na agenda de Santini estava salvo como “FB01”, afirma ainda que não
esperava que logo o ex-sócio lhe desse um “tiro nas costas”. Em tom
majestático, ele ordena: “Vá embora de Brasília”. Eis o texto, exatamente como
foi escrito por Flávio para Alexandre Santini, por WhatsApp:
“Não sei o que vc está ganhando
querendo destruir meu casamento e minha família, mas saiba que Deus te usou pra
me fazer um pai, um marido e uma pessoa melhor. Me arrependi, de verdade, de
muitas escolhas erradas que fiz na vida e não vou errar nunca mais com a minha
família. Peço que se afaste definitivamente da Fernanda, não ligue mais, não
procure mais, arrume outra dentista. Seu contato com ela agora só está fazendo
mal a ela. Nunca imaginei que logo vc seria a pessoa a me dar tiro nas costas
desse jeito. Vá embora de Brasília, vai viver sua vida, vá ser feliz longe da
gente. Espero que um dia vc encontre uma esposa tão maravilhosa pra vc quanto a
Fernanda é pra mim, que te de uma família tão maravilhosa quanto a minha e com
essa pessoa vc não cometa os mesmos erros que eu cometi. Que vc ame essa pessoa
como eu amo a Fernanda! Precisei passar pelo que estou passando pra dar o real
valor a coisa mais importante da minha vida: a minha família! Vc não vai
conseguir destruir algo que foi Deus que criou, desista. Vou orar pedindo a
Deus que vc encontre um rumo na sua vida, pra que vc seja feliz! Abs!”
Alexandre Santini responde com
poucas palavras: “Flávio, você tem noção do que você escreveu, e para quem
escreveu? Acredito que tenha mandado para a pessoa errada. Abraço”.
O ex-sócio não foi embora de
Brasília logo após receber a mensagem nem a crise com Flávio Bolsonaro terminou
ali.
Um Rolex para Flávio
Os registros comprometedores para Flávio Bolsonaro guardados por Santini – e
mantidos até hoje por pessoas que acompanharam de perto a confusão entre os
dois, inclusive com gravações nas quais o ex-sócio revela segredos do senador –
vão além das farras íntimas bancadas com dinheiro de origem suspeita e de suas
repercussões na vida familiar do agora candidato à Presidência da República. No
pacote há, também, elementos que, se conhecidos à época, poderiam reforçar
sensivelmente as provas coletadas pelo Ministério Público do Rio nas
investigações das rachadinhas. São inúmeros comprovantes de pagamento,
planilhas e outros documentos copiados pelo ex-sócio com evidências de que os
recursos de origem duvidosa que giravam em torno da chocolateria serviam,
também, para pagar despesas pessoais e para bancar os investimentos em
apartamentos e salas comerciais que Flávio fazia.
Mas essa parte, sobre a qual os
promotores fluminenses já haviam se debruçado, soa antiga e até um pouco
ultrapassada perto dos registros de Santini relacionados à atuação de Flávio,
já senador da República, durante o período em que o pai foi presidente. Em
torno dele, àquela altura, giravam figuras com interesses diversos, incluindo
lobistas e advogados, que passaram a usar a relação de proximidade para operar
interesses no governo. Uma dessas frentes tinha um endereço que ficou conhecido
ainda àquela época: uma casa alugada no Lago Sul de Brasília onde dois amigos
de Flávio do Rio de Janeiro montaram um bunker frequentado por interessados em
resolver pendências na máquina federal. O próprio Flávio visitava o endereço
com certa regularidade. Um dos amigos dele que davam expediente por lá chegou a
ser preso em 2020 sob a suspeita de integrar o que ficou conhecido como “QG da
Propina” na gestão de Marcelo Crivella na prefeitura do Rio. O outro era o
advogado Alan Belaciano, que também tivera problemas com a polícia pouco antes
– foi detido por se apresentar como juiz, coisa que não era.
Especializado em causas
trabalhistas e esportivas (hoje ele ajuda o clube Vasco da Gama em sua saga
para resolver os graves problemas financeiros que atravessa), Belaciano não
tinha quase nenhuma experiência em Brasília, mas a relação que mantinha à época
com Flávio o colocou em posição privilegiada na capital. Era um grupo restrito
de amigos que, com Jair Bolsonaro no governo, enxergou oportunidades. As
amizades eram de épocas distintas, mas os “parceiros” de Flávio, com acesso
facilitado a figuras de relevo do governo de Jair Bolsonaro, conviviam,
participavam dos mesmos encontros, se ajudavam. Na pandemia de Covid-19, eles
estreitaram contato, por exemplo, com os empresários que conseguiram fechar com
o Ministério da Saúde um contrato bilionário, mais tarde cancelado por causa
das evidências de irregularidades, para a compra da vacina indiana Covaxin.
Ainda que houvesse alguma dose de
ciúme aqui e acolá, os “amigos do Flávio” sabiam dos movimentos uns dos outros
e até compartilhavam tarefas, muitas delas com o objetivo de resolver problemas
comezinhos para o filho do presidente. Era tudo junto e misturado. O dinheiro
angariado nos negócios que surgiam se cruzava entre os diferentes personagens:
além de proporcionar luxos e outras alegrias para os amigos, servia também para
custear despesas do próprio Flávio. Foi na condição de integrante do seleto grupo
de “parceiros” que Alexandre Santini guardou, por exemplo, comprovantes de que
Belaciano pagou, como já revelado anteriormente, os equipamentos de academia
para a casa que Flávio havia acabado de comprar em uma das áreas mais
exclusivas e caras de Brasília, pelo valor declarado de R$ 5,9 milhões. As
notas fiscais emitidas no ato da compra mostram que, só ali, a conta passou de
R$ 90 mil.
mil.

Quando as primeiras notas fiscais vieram a público, Flávio chegou a admitir que “um amigo de longa data” havia comprado os equipamentos a título de “empréstimo pessoal”, pelo qual estava pagando. Sobre as ameaças de Santini, o senador afirmou: “Ele tem mandado uns recados esquisitos para mim. Já me pediu dinheiro e eu não dei. Não quero dar linha para maluco. É um ex-sócio e ex-amigo”. Depois, voltou a dizer que as acusações eram “infundadas”. A despeito das negativas peremptórias do senador, o arsenal de Santini continuou a assombrá-lo – inclusive com outros segredos mantidos pelo ex-sócio que só agora se tornam conhecidos.
O caixa informal estava sempre disponível, e Flávio podia contar com ele nos momentos de necessidade. Para despesas grandes e pequenas. Se havia reparos a fazer na casa recém-comprada, eram os funcionários do bunker de Balaciano que iam lá resolver, e os próprios amigos pagavam, como demonstra outro lote de mensagens ao qual tivemos acesso ao longo da apuração desta reportagem. O próprio Santini ficou responsável por comprar o aparelho de televisão de 75 polegadas que Flávio queria. Até mensalidades da academia de luxo que o senador e sua mulher frequentavam em Brasília chegaram a ser pagas pelo ex-sócio quando a amizade ainda estava intacta.

Não era só isso. Das contas dos “amigos do Flávio” saía dinheiro para custear agrados mais luxuosos para o senador que hoje é candidato a presidente. É o caso de um relógio Rolex em ouro branco, da linha Submariner Date, que Alan Belaciano comprou para Flávio em uma loja de Brasília. A aquisição foi feita em 10 de fevereiro de 2022. A nota fiscal, emitida em nome do advogado, mostra que não era um mimo qualquer: o relógio custou R$ 305 mil. Registros guardados por Alexandre Santini, incluindo mensagens de texto, não deixam dúvidas: Balaciano pagou, mas o Rolex era para Flávio Bolsonaro.

O governo Bolsonaro beirava a metade quando o ex-sócio de Flávio se mudou do Rio para Brasília. Àquela altura, estava escaldado pelas investigações do escândalo das rachadinhas, durante as quais os promotores chegaram a apontá-lo como um “laranja de luxo”. Queria proteção, e a vida perto dos amigos poderosos poderia ser mais fácil. Embora fosse um dos protagonistas da trama das rachadinhas, na capital federal ele passou um longo período incógnito. Laranja, que nada. Sua fama era outra: a de bon vivant e namorador. Pouco após chegar à cidade, ele abriu uma empresa de tecnologia com a qual esperava faturar alto. Não deu certo. Logo foi aconselhado a fechar a firma, sob pena de ressuscitar os velhos fantasmas que rondavam Flávio.

O ex-sócio era da cozinha de Flávio e, no período em que foram amigos, se aproximou de outros integrantes do clã Bolsonaro
Com o passar dos anos, a relação que era de confiança extrema se transformou em ódio. No auge da briga, entre as muitas conversas gravadas nas quais abriu o verbo contra o antigo amigo, Santini dizia textualmente que seus segredos, se contados por completo, poderiam implodir a carreira de Flávio Bolsonaro. “Se eu quiser, eu ponho o Flávio na cadeia. Com o que tenho na mão, ele vai preso. Sei tudo da vida dele”, afirmou em uma das oportunidades.
Quando o próprio Santini, Queiroz e Wassef passaram a se sentir escanteados pelos Bolsonaro, o WhatsApp do ex-sócio virou um muro de lamentações, como mostram outras mensagens às quais o PlatôBR teve acesso. “Eu sou o cara que mais se fodeu desde o dia 1. Só por fogo amigo e traição. Tudo o que eu avisei um milhão de vezes que iria acontecer está acontecendo. Não errei uma. Mas ao invez (sic) de me ouvirem, só ouviam os traidores, inimigos, e os incompetentes. Estou sofrendo e muito triste com tudo isto”, escreveu Frederick Wassef a Santini tempos depois de o inquérito das rachadinhas, no qual ele havia atuado em favor de Flávio, ser anulado. “Somos 2”, solidarizou-se Santini, de pronto. “O poder seduziu e surtou o FB”, emendou.

Wassef lembrou que foi por causa de seu trabalho que as investigações das rachadinhas foram aniquiladas – o que, para ele, deveria ser motivo para os Bolsonaro serem gratos. “Graças ao HC de minha exclusiva autoria no STF, de número 201965, que anulou todos os rifs e atos do COAF, matando e esvaziando todo o processo e investigação. O julgamento e vitória foi em 1 de Dezembro de 2021 e apos o resultado dei entrevista coletiva a TV com Flavio ao meu lado”, digitou o advogado, tropeçando no teclado, nas vírgulas e nos acentos (a mensagem, assim como as demais desta reportagem, está reproduzida exatamente na forma como foi digitada). RIFs, no caso, são os relatórios de inteligência financeira do Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, que monitora transações suspeitas e as comunica aos órgãos de investigação. HC, por óbvio, é habeas corpus.
Antes, quando tudo ainda ia bem na relação de Alexandre Santini com Flávio Bolsonaro, as conversas dele com Fabrício Queiroz tinham outro teor. O ex-sócio era a ponte para o operador das rachadinhas pedir dinheiro a Flávio, como mostrou uma reportagem publicada por este repórter em novembro de 2023. Sem meias palavras, reclamando que estava apertado financeiramente, Queiroz costumava pedir a Santini que lhe desse dinheiro – ou, como aconteceu ao menos uma vez, que lhe fizesse um “empréstimo” para Flávio acertar depois. Em um dos áudios, ele deixou evidente que, a partir da eclosão do escândalo, passou a receber ajuda financeira dos Bolsonaro. “Tô passando uma dificuldade muito grande, e eu tô precisando de um dinheiro, tá? Natal chegando aqui… Tô com problema financeiro mesmo, irmão. (…) Não é com migalhas que me dão aí de vez em quando que resolve a minha vida, não, cara”, queixa-se.
Mesmo após o rompimento de Santini com Flávio, ainda sem saber que a relação havia se esfacelado, Queiroz seguiu procurando o ex-sócio do senador para enviar recados e pedidos. Em uma das situações, Santini estava bloqueado por Flávio no WhatsApp, mas encaminhou por um intermediário os áudios que recebera de Queiroz. O 01 era o destinatário. “Já que o Flávio me bloqueou sem motivos no WhatsApp. Segue o áudio que o Fabrício Queiroz enviou para que eu enviasse ao Flávio”, escreveu. “Essa PICA é do Flávio, e ele deveria resolver. O Flávio precisa aprender a não abandonar quem sempre esteve ao lado dele, uma hora isso vai trazer problemas a ele”, acrescentou o ex-sócio ao encaminhar os áudios com as cobranças de Queiroz.

No papel de vendedor de chocolates, Flávio prometeu dar o mesmo desconto oferecido pela loja online da Kopenhagen. E, claro, aproveitou a oportunidade para fazer propaganda do produto. “A caixa de bombons São Paulo realmente não é apenas chocolate, é sim um presente elegante, muito bonito e bem gostoso! rs”, escreveu o hoje candidato do PL ao Planalto à representante da associação que tratava da compra. “Consigo o desconto de 7,5% e também te dou as sacolas de presente.” Ele registrou que tudo ficaria por R$ 50 mil redondos, e que o pagamento poderia ser por “transferência bancária, cartão, cheque ou cash”.
Já no final do ano, bem perto do Natal, o ex-sócio lançou uma cartada que, finalmente, deu certo. Mandou uma nova mensagem a Flávio lembrando de mais um segredo compartilhado entre os dois – este, bastante sensível por envolver o gabinete do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal. Kassio, como se sabe, foi indicado para a corte por Jair Bolsonaro. Até por isso, Flávio mantém com ele uma relação de bastante proximidade.
Sem disfarçar a ameaça, Santini diz na mensagem enviada a Flávio ter a informação de que ele havia tratado diretamente com Kassio sobre interesses de um cliente que tinha um processo no gabinete do ministro. O caso seria tocado por Alan Belaciano – aquele amigo de Flávio que havia montado o bunker no Lago Sul, o mesmo que comprou o Rolex. A “intermediação” de Flávio teria dado tão certo que até um jantar chegou a ser marcado depois, na casa, para alinhavar tudo. Inclusive com a participação do chefe de gabinete do ministro. “Vou te passar apenas uma única informação que considero importante para vc. Vc falou diretamente com o Kassio Nunes e intermediou um cliente em um processo para tratarem disso. Vc é maluco ou inconsequente! Brasília não tem muros e seu amiguinho está sendo observado…”, escreveu Santini.

As ameaças tinham acabado de mudar de patamar. E, desta vez, Flávio prontamente topou conversar. Na mesma tarde, ele respondeu: “Terça às 15:00 no meu gabinete ok”. O que os dois acertaram não se sabe, mas logo depois Alexandre Santini escreveu aos contatos com os quais havia compartilhado seu arsenal dizendo que a guerra com Flávio Bolsonaro estava resolvida. “Assunto está encerrado”, anunciou. O ódio parece ter mesmo ficado para trás. Hoje, o ex-sócio faz campanha para Flávio como se nada tivesse acontecido. “Sou e sempre serei FLAVIO BOLSONARO”, diz a bio de seu perfil, assim mesmo, com o nome do candidato do PL ao Planalto em letras garrafais. Em Brasília, ameaças funcionam. Mas os segredos nem sempre ficam guardados eternamente.
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