Por Alice Maciel e Paulo
Motoryn
Durante um ano e meio, Lídia
Maria Figueiredo Mazelli, 61 anos, trabalhou no escritório do advogado Willer
Tomaz, amigo próximo do senador Flávio Bolsonaro (PL). Desde que deixou o emprego,
em setembro de 2020, passou a responder, ao menos no papel, como dirigente de
14 empresas ligadas ao antigo patrão, conforme levantamento do Núcleo
Investigativo do ICL Notícias e da newsletter Noites Húngaras.
Os negócios incluem uma mansão
avaliada em R$ 10 milhões, em Angra dos Reis (RJ), que foi alvo de disputa
judicial com o jogador Richarlison; uma ilha anunciada por R$ 17 milhões,
também em Angra; um hangar de luxo em Brasília e a companhia responsável por
processar os pagamentos das bets credenciadas pelo governo do Rio de Janeiro.
Em agosto, Willer Tomaz foi alvo
da Operação Sem Desconto, da Polícia Federal (PF), que investiga suspeitas de
lavagem de dinheiro no esquema de fraudes contra aposentados e pensionistas do
INSS. Amigo próximo de Flávio Bolsonaro, o advogado emprestou dois imóveis
recentemente ao senador: uma casa em Angra dos Reis, onde Flávio comemorou o
aniversário da filha em fevereiro, e um apartamento em São Paulo usado durante
a campanha presidencial. Os imóveis também têm conexões com o banqueiro Daniel
Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, conforme revelaram o ICL
Notícias e a revista Piauí.
Apesar de constar como diretora e
presidente das empresas de Willer Tomaz, Lídia leva uma vida distante do padrão
normalmente associado a executivos. Localizamos ela em um prédio no Riacho
Fundo, região administrativa do Distrito Federal, cerca de 20 quilômetros do
centro do plano piloto de Brasília. O prédio de três andares está localizado em
uma área comercial, e sobre uma loja de móveis.
Ao ser abordada, Lídia disse que
trabalha no local como doméstica, negou conhecer Willer Tomaz e afirmou não
saber que seu nome aparece à frente das empresas do advogado. “Acho que teve
alguma confusão aí. Eu nem trabalho lá. Eu sou doméstica aqui”, ressaltou.
Ao ser questionada se seus dados
poderiam ter sido usados sem autorização, Lídia respondeu que não sabia.
“Então, não sei. Porque eu não conheço [Willer Tomaz]. Não tenho nenhum
problema, não. Eu tenho trabalhado aqui, na casa de uma moça”, afirmou.
Lídia também negou ser Lídia
Maria Figueiredo Mazelli. Uma encomenda recebida por ela quando estávamos na
entrada do prédio, porém, trazia esse nome completo. A identificação foi ainda
corroborada pela reportagem por meio da comparação da entrevistada com a
fotografia de um documento de identidade de Lídia Maria Figueiredo Mazelli
apresentado por ela a envolvidos na disputa pela mansão em Angra dos
Reis.
Após a publicação da reportagem,
Lídia mudou sua versão. Admitiu ser ela, e disse que nunca exerceu a profissão
de empregada doméstica. Ela afirmou que respondeu desta forma porque ficou
assustada e queria encerrar a conversa. A íntegra da manifestação está
reproduzida ao final no texto.
Procurado, Willer Tomaz negou, em
uma primeira resposta, por meio de nota, que a pessoa encontrada pela
reportagem fosse a administradora de suas empresas. “Se a reportagem falou com
alguém que disse isso, falou com outra pessoa”, afirmou. Depois de ser confrontada
com as provas levantadas pelo ICL Notícias, porém, a assessoria do advogado
mudou a versão. Em um segundo momento, por meio de ligação telefônica, informou
que a mulher abordada era, de fato, Lídia e afirmou que ela teria ficado com
medo durante a abordagem, razão pela qual teria dado respostas evasivas e se
retirado do local.
Em nota, o advogado afirmou ainda
que Lídia Maria Figueiredo Mazelli “é administradora de empresas, graduada há
mais de 20 anos, e tem longa experiência em cargos de gestão em grandes
empresas”, além de ter ocupado cargos de direção em empresas do grupo. Diante
da afirmação, a reportagem pediu que a assessoria apresentasse qualquer tipo de
comprovação da graduação mencionada e da formação alegada para o exercício
desses cargos. Não houve resposta a esse pedido até a publicação desta
reportagem.
Sobre a Operação Sem Desconto,
Willer afirmou que “não é investigado em desvios de aposentados, e a própria
PGR se manifestou contra a diligência por falta de qualquer ligação com o
caso”.
De funcionária a presidente
dos negócios de Willer Tomaz
O advogado Willer Tomaz
representou Lídia na Justiça enquanto ela trabalhava como funcionária dele. Em
junho de 2019, ele assumiu sua defesa no inventário aberto para a partilha dos
bens deixados pela mãe. Nos autos, Lídia afirmou não ter condições de pagar as
custas e os honorários sem comprometer o próprio sustento e declarou ser
“pessoa pobre na acepção jurídica do termo”.
Registros trabalhistas
consultados pelo ICL Notícias mostram que ela teve vínculo formal no
escritório Willer Tomaz Advogados entre 25 de março de 2019 e 1º de setembro de
2020. Quatro dias depois do fim do contrato, em 5 de setembro, Lídia já aparecia
como dirigente da Jet Line Locação e Serviços Aéreos. Na mesma época, ela
assumiu a diretoria da WT Administração de Imóveis e Bens. Lídia deixou as
empresas em agosto e julho de 2024, respectivamente.
Seu nome também passou pelo
quadro de diretoria de companhias dos setores de comunicação, mineração,
imóveis, investimentos e meios de pagamento. São elas: Difusora Comunicação,
Embrasis, Jota Comunicação e Rádio Caxias. Mais tarde, seu nome apareceu nos
registros da Carbon Cer, Alcazar, RioPag, Friponor, Capital Pretium,
Neoverde e a Ícaro Aviation, que opera um hangar de luxo para jatos executivos
em Brasília.
Lídia, Tomaz, Flávio e a
disputa polêmica pela mansão de Angra
Como diretora-presidente da WT
Administração de Imóveis e Bens, Lídia assinou documentos relacionados à
disputa pela posse da mansão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis. A casa foi
comprada em 2020 pela Sport 70, empresa ligada ao jogador Richarlison. Dois
anos depois, uma decisão judicial transferiu a posse do imóvel para a firma de
Willer Tomaz. O processo foi encerrado em junho de 2025, com desfecho favorável
ao advogado.
Apesar de não ser parte da ação,
Flávio Bolsonaro foi arrolado como testemunha pelos advogados ligados ao
jogador de futebol, conforme revelou em setembro de 2022, o portal Metrópoles.
O senador esteve na mansão duas vezes antes de a empresa de Tomaz conseguir a
posse.
O empresário Antônio Marcos da
Silva, antigo dono do imóvel e responsável por vendê-lo ao grupo ligado a
Richarlison, disse à Folha de S. Paulo que Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz se
tratavam como sócios durante a visita à mansão. Ao ICL Notícias, Marcos contou
que Flávio lhe apresentou o advogado dizendo: “Temos vários negócios
juntos”.“Flávio dizia, ‘ô sócio, vamos comprar essa casa’”, recorda Marcos.
“Eles também comentavam entre si que iam fazer uma casa compartilhada”,
destacou.
Anos depois, em fevereiro de
2026, Flávio Bolsonaro comemoraria o aniversário da filha caçula justamente em
uma mansão compartilhada que também fica na Ilha Comprida, e que tem Willer
entre seus cotistas. Conforme mostrou o ICL Notícias, a propriedade é gerida
pela Prime You, empresa especializada no compartilhamento de bens de luxo
ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master.
A credibilidade do relato de
Marcos foi questionada pela assessoria de Willer Tomaz, uma vez que o
empresário foi condenado por estelionato em abril deste ano. Marcos afirmou que
a decisão foi em primeira instância, que está recorrendo e é inocente. Ele destacou
ainda que o processo nada tem a ver com o negócio de Angra dos Reis.
“Todas as decisões judiciais
foram favoráveis ao Dr. Willer, inclusive no Superior Tribunal de Justiça, e já
transitaram em julgado. A pessoa apresentada pela reportagem como ‘ex-dono’
nunca foi proprietária do imóvel: ocupava-o como posseiro, sem qualquer título,
e foi denunciada por estelionato. A afirmação de que o senador Flávio Bolsonaro
seria sócio do Dr. Willer ou participaria da compra é falsa. O senador não
participou da aquisição e não tem qualquer participação no imóvel”, destacou em
nota a assessoria de Willer Tomaz.
Flávio Bolsonaro foi procurado,
mas não retornou às tentativas de contato da reportagem.
Lídia Mazelli presidiu empresa
dona de ilha em Angra dos Reis
Além da mansão disputada com o
jogador Richarlison, a WT Administração de Bens e Imóveis possui o direito de
ocupação de outras três propriedades na Ilha Comprida, de acordo com
levantamento da Secretaria do Patrimônio da União. A rede de negócios em nome
de Lídia também chega a uma ilha particular em Angra dos Reis: a Ilha do José
André. Com área de 56 mil metros quadrados, ela chegou a ser anunciada por R$
17 milhões em um site de imóveis de luxo.
Lídia assumiu a presidência da
Friponor Brasil Turismo, empresa responsável pela Ilha do José André, em
novembro de 2023. Um ano e meio depois, foi ela quem assinou um pedido ao
Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para saber quanto da ilha poderia ser ocupada
por um empreendimento turístico. A empresa queria descobrir se poderia
construir em até 10% ou 20% da área.
Em agosto, durante ato de
campanha em Angra dos Reis, Flávio Bolsonaro defendeu mudanças para facilitar o
licenciamento de condomínios, grandes empreendimentos e resorts na região,
proposta que poderia beneficiar os interesses do amigo.
Empregada doméstica
‘participou’ de administração de empresa de apostas
Entre as empresas que tiveram
Lídia Maria Figueiredo Mazelli em sua administração também está a Pixs Cobrança
e Serviços em Tecnologia, atual RioPag S/A. A companhia foi contratada pela
Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) para processar depósitos,
pagamentos e saques das casas de apostas credenciadas pelo governo
estadual.
O contrato, estimado em R$ 32
milhões e com duração de cinco anos, colocou a ex-empregada doméstica de Willer
Tomaz no comando formal de uma empresa responsável por movimentar o dinheiro
das bets autorizadas pelo estado.
A contratação foi cercada de
questionamentos. Conforme revelou a Folha de S.Paulo, apenas duas
empresas participaram da licitação. A Idea Maker, que ofereceu repassar 26% das
receitas ao estado, foi desclassificada porque registrou o percentual com duas
casas decimais, “26,00%”, e não com as três exigidas pelo edital.
Com a eliminação da concorrente,
a Pixs, cuja proposta inicial previa um repasse menor, de 20%, permaneceu
sozinha na disputa. Posteriormente, a Loterj acertou com a empresa uma taxa de
26,455%. Depois de vencer a licitação, a Pixs transferiu sua sede do Paraná
para o Rio de Janeiro e passou a ter Lídia em sua direção. O negócio foi
fechado durante o governo de Cláudio Castro, aliado de Willer e de Flávio
Bolsonaro. A Loterj acusa a Riopag de sumir com R$ 20,9 milhões do
estado.
Os elos entre Flávio e Willer
A amizade entre Flávio Bolsonaro
e Willer Tomaz é pública desde 2021. Durante a CPI da Covid, o senador saiu em
defesa do advogado e se referiu a ele como “meu amigo Willer Tomaz”. No ano
seguinte, Flávio tentou emplacar o nome de Willer em uma vaga no Conselho
Nacional de Justiça, mas a indicação não avançou.
A relação se estreitou ainda mais
nos anos seguintes. Segundo O Globo, a Polícia Federal identificou ao menos
cinco viagens internacionais feitas pelos dois no primeiro semestre de 2025. Em
uma delas, Flávio e Willer viajaram com as famílias para a África do Sul e
participaram de um safári ao lado do senador Weverton Rocha, também investigado
no escândalo do INSS.
Apesar de negarem sociedade ou
negócios em comum, Flávio e Willer assinam a defesa de um mesmo cliente em uma
disputa de R$ 159 milhões no Superior Tribunal de Justiça. A ação começou em
2021, ano em que, segundo Antônio Marcos da Silva, Willer passou a se
movimentar para assumir a mansão de Angra dos Reis, disputada com o jogador
Richarlison.
Também em 2021, Flávio abriu seu
escritório de advocacia em Brasília. Em entrevista à Agência Pública, Letícia
Caetano dos Reis afirmou ter sido indicada por Willer para administrar o
negócio do senador. O advogado negou a informação à época.
A indicação abre outro caminho
nessa rede de relações. Letícia é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, sócio de
Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. Alexandre também é dono da
Voga Serviços Contábeis, responsável pela contabilidade das empresas de Flávio.
O
ICL Notícias revelou que a Bravo Grafeno, fabricante de capacetes da
qual o senador é sócio, divide uma sala em Brasília com pelo menos 16 empresas
ligadas ao Careca do INSS. As companhias também usam o mesmo escritório de
contabilidade.
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