George Antunes atribui a Vinícius
Capuxu insistência na compra de 20 respiradores por R$ 2,16 milhões; MPF aponta
prejuízo de R$ 1,43 milhão
“São cargos que é para ser da
nossa confiança, aí o cara não é da minha confiança, mas é da confiança do
Prefeito, é da confiança do filho do Prefeito.” A declaração partiu de quem
comandava a Secretaria Municipal de Saúde de Natal. Em uma ligação interceptada
pela Polícia Federal em 4 de julho de 2021, o então secretário George Antunes
falava sobre o adjunto Vinícius Capuxu de Medeiros e a compra de respiradores
que, três dias antes, havia levado os investigadores à pasta.
O prefeito mencionado era Álvaro
Dias (PL), hoje candidato ao Governo do Rio Grande do Norte. A referência ao
filho que pretendia disputar uma cadeira de deputado remete ao atual deputado
estadual Adjuto Dias (PL), eleito em 2022. George não pronunciou os nomes dos
dois naquele trecho. Falou em cargos de confiança e, na sequência, levantou uma
hipótese: “então se no final das contas você for atrás, deve ter esse povo todo
envolvido, inclusive esse filho desse Prefeito, o cara quer se candidatar aí a
Deputado”. Não apresentou, na conversa, elementos que demonstrassem esse
suposto envolvimento.
Vinícius tornou-se réu por
peculato qualificado e dispensa ilegal de licitação. O empresário Wender de Sá,
responsável pela fornecedora dos equipamentos, responde às mesmas acusações e
também por fraude à execução contratual. Em decisão de 25 de agosto, a Justiça
manteve o recebimento da denúncia, mas determinou a exclusão da interceptação
telefônica e de suas prorrogações, além de outros elementos da investigação.
O que George Antunes disse na
ligação
A ligação começou às 10h59 e
durou dez minutos e quatro segundos. George telefonou para agradecer uma
mensagem de solidariedade enviada a Kátia por um interlocutor identificado como
Marcos. A conversa passou rapidamente ao impacto da operação. “O nome de uma
secretaria que você está dirigindo envolvido em um escândalo é chato”, afirmou
o secretário. Antes, havia dito: “Tudo por causa de política, e fica esse cabra
de peia no meio do caminho fazendo as falcatruas dele e manchando o nome da
gente, né?”
George não identificou ninguém
pelo nome nessa frase. Quando passou a tratar da negociação, porém, apontou o
adjunto como responsável pela insistência na compra. “O pior, o pior Marcos é
que eu não queria comprar esse negócio, sabe? Foi aquele Secretário Adjunto que
ficou insistindo nesse negócio, sabe?”
George atribui ao adjunto
a insistência na compra dos respiradores. Auto Circunstanciado Telefônico nº
02, p. 4 — Reprodução/PF; destaques editoriais.
O negócio era a aquisição de 20
ventiladores pulmonares usados ou seminovos por R$ 2,16 milhões, durante a
pandemia de Covid-19. Cada unidade custou R$ 108 mil. A contratação, registrada
no portal de transparência municipal, ocorreu por dispensa de licitação em
2020.
Ao reconstituir a decisão, George
disse que havia recebido de Vinícius a informação de que não existiam
equipamentos disponíveis em outros fornecedores. Mesmo assim, relatou uma
desconfiança anterior à autorização. “Eu fiquei cismado com medo dessa empresa
não existir, sabe? Com medo desses equipamentos não prestarem…”
O secretário contou que exigiu
verificar a fornecedora e os aparelhos. “Rapaz, eu quero ver esse equipamento,
eu quero ver se essa empresa existe, eu não vou deixar você comprar esse
negócio assim no escuro não, porque eu não sou doido não”, afirmou, reproduzindo
o que teria dito ao adjunto.
A resistência terminou em
autorização. “Aí com muita luta eu permiti”, disse George. Sua explicação foi a
falta de alternativas no momento em que a rede de saúde precisava dos
respiradores. “Ele me disse que esgotou todas as tentativas, que não tinha respirador
para comprar.” Em seguida, descreveu o dilema como o percebia: “Ora, se ele é o
meu Secretário Adjunto da área, é o responsável pelo serviço, tá me dizendo que
não tem outra alternativa, então tenho que acreditar nele, eu vou fazer o quê?”
Foi depois dessa explicação que
George discutiu a confiança no adjunto e mencionou o prefeito e seu filho. Na
análise que acompanha a transcrição, a PF registrou sua interpretação: Vinícius
“seria o grande responsável por toda a operação da compra dos respiradores”.
Trata-se da avaliação dos investigadores sobre o diálogo.
George menciona a
confiança do prefeito e de seu filho e levanta uma hipótese de envolvimento,
sem apresentar elementos que a comprovem na conversa. Auto Circunstanciado
Telefônico nº 02, p. 5 — Reprodução/PF; destaques editoriais.
O próprio George também fez
ressalvas. Questionado por Marcos sobre os valores, afirmou que a escassez da
pandemia dificultava a comparação de preços. Sobre a conduta do adjunto,
declarou: “eu não sei até que ponto ele, de fato, estava tendo dificuldade para
comprar ou se tinha algum interesse escuso, eu não posso julgar uma pessoa”.
George diz não saber se
havia dificuldade real de compra ou interesse escuso. Auto Circunstanciado
Telefônico nº 02, p. 6 — Reprodução/PF; destaques editoriais.
Compra de R$ 2,16 milhões e
acusação do MPF
Na acusação apresentada à
Justiça, o Ministério Público Federal sustentou que a contratação da Spectrum
havia sido direcionada. A proposta da empresa era de 11 de maio de 2020; a
abertura do procedimento foi autorizada três dias depois. Segundo o MPF, uma
recomendação jurídica para complementar a pesquisa de preços não foi atendida,
e as notas fiscais foram emitidas em 27 de maio, antes da assinatura do
contrato, no dia seguinte.
A acusação estimou prejuízo de
pelo menos R$ 1.433.340. Também apontou que outra empresa controlada por
Wender, a Vega, recebeu indiretamente R$ 1,268 milhão dos recursos da
contratação. Os valores têm significados diferentes: o primeiro é o dano
calculado pelos investigadores; o segundo, uma movimentação financeira descrita
pelo MPF. Nenhum deles comprova repasse a Álvaro ou Adjuto.
As condições dos equipamentos
também entraram na investigação. Conforme o MPF, cinco respiradores destinados
ao Hospital Municipal foram devolvidos por inadequação ao atendimento, e havia
aparelhos com problemas de funcionamento e de identificação. A defesa da
contratação contesta a classificação dos equipamentos como inúteis e sustenta
que eles foram utilizados no tratamento de pacientes.
Documento da PF e contestação das
interceptações
O relato telefônico consta do
Auto Circunstanciado Telefônico nº 02, elaborado pela PF em 14 de julho de
2021. O documento identifica uma ordem judicial do juiz federal Mário Azevedo
Jambo. Parte da conversa — a declaração de que George não queria comprar os
aparelhos e de que o adjunto insistira — foi divulgada pelo próprio MPF ainda
em 2021.
A utilização das interceptações
foi contestada judicialmente. Na decisão de 25 de agosto de 2026, o juiz federal Francisco
Eduardo Guimarães Farias determinou a exclusão da interceptação telefônica e de
suas prorrogações, em cumprimento às decisões do TRF5 e do STF. Ao mesmo tempo,
manteve o recebimento da denúncia, por entender que esse ato havia se apoiado
em provas consideradas válidas. A decisão não identifica individualmente a
conversa de George aqui reproduzida. O alcance das medidas e a situação atual
dos processos estão detalhados no quadro a seguir.
O que a Justiça decidiu — e o que
ainda falta julgar
Quem responde à ação penal?
Vinícius Capuxu de Medeiros e Wender de Sá respondem por peculato com causa de
aumento de pena e dispensa ilegal de licitação. Wender também é acusado de
fraude à execução contratual. Álvaro Dias, Adjuto Dias e George Antunes não são
réus nessa ação.
Já houve condenação criminal?
Não foi localizada sentença na consulta pública realizada em 24 de setembro de
2026. Na decisão mais recente disponível, de 25 de agosto, a 14ª Vara Federal
do RN manteve o recebimento da denúncia e determinou a intimação das defesas
para responder à acusação. Receber a denúncia permite que o processo prossiga;
não significa reconhecer culpa.
O que aconteceu com as
interceptações? Após decisões do TRF5 e do Supremo Tribunal Federal, a
Justiça determinou, em 25 de agosto de 2026, a exclusão da interceptação
telefônica e de suas prorrogações, além de limitar outros dados e documentos
utilizados na investigação. A ordem cumpre a decisão do STF na Reclamação
94.852. O juiz manteve a ação porque entendeu que a denúncia já havia sido
recebida com base nas provas consideradas válidas. O texto da decisão não
identifica individualmente a ligação de George reproduzida nesta reportagem; por
isso, ela não deve ser confundida com prova judicial válida da acusação. Leia a decisão da 14ª Vara Federal.
E a ação de improbidade?
Os pedidos foram julgados improcedentes na esfera cível. Ao rejeitar os
embargos do MPF, em 19 de fevereiro de 2026, a 5ª Vara Federal reafirmou que o
contexto de calamidade pública e estado de necessidade afastava o dolo
específico necessário à responsabilização. Há recurso: o andamento registra a
remessa dos autos ao TRF5 em 21 de julho de 2026. Esse resultado cível não
encerrou a ação penal. Leia a decisão cível e consulte o andamento.
Fontes: consulta pública da
Justiça Federal, ação penal nº 0808458-79.2021.4.05.8400 e ação de improbidade
nº 0808746-27.2021.4.05.8400. Verificação em 24/09/2026.
O que diz Álvaro Dias
Em manifestação divulgada em
agosto de 2026, as assessorias jurídica e de comunicação de Álvaro negaram
sobrepreço e destacaram que ele não é acusado criminalmente. Sustentaram
que as comparações de valores desconsideravam diferenças técnicas entre
equipamentos e sua disponibilidade imediata. Também afirmaram que o então
prefeito determinou uma vistoria antes da conclusão do negócio e contestaram a
associação de seu nome às acusações. Agora RN
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