O jornal O
Estado de São Paulo afirmou em editorial publicado nesta
quarta-feira (23) que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição
presidencial representaria o risco de integrantes ou pessoas ligadas às
milícias alcançarem influência no mais alto nível do poder da República. O
texto, intitulado “Flávio e a sombra dos milicianos”, resgata episódios da
trajetória política do senador e cobra explicações sobre sua relação com
personagens associados a organizações criminosas do Rio de Janeiro.
No editorial, o Estadão
parte de reportagem publicada pelo próprio jornal segundo a qual, em 2023, uma
assessora de Flávio negociou com Robson Calixto Fonseca, conhecido como
“Peixe”, a destinação de quase R$ 200 mil em recursos de emenda parlamentar.
Segundo a publicação, a negociação teria envolvido a busca por vantagens
indevidas.
“É extremamente preocupante, para
dizer o mínimo, que um candidato à Presidência da República tenha mantido
vínculo tão próximo com um criminoso de sangue até pouco tempo atrás”, afirma o
editorial.
Em fevereiro deste ano, a
Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Peixe por integrar
organização criminosa armada. Segundo a Corte, ele fazia parte de uma estrutura
composta por milicianos e ligada aos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão,
condenados no mesmo julgamento como mandantes dos assassinatos da vereadora
Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, ocorridos em março de 2018.
De acordo com os registros
oficiais do STF, Peixe recebeu pena pelo crime de organização criminosa.
Domingos e Chiquinho Brazão, por sua vez, foram condenados pelos homicídios e
por participação na organização criminosa.
Editorial cobra explicações de
Flávio
Procurado sobre a destinação dos
recursos, Flávio Bolsonaro afirmou, segundo o editorial, que “a emenda foi
destinada dentro da legislação vigente” e que a responsabilidade pela prestação
de contas caberia ao destinatário do dinheiro.
Para o Estadão, porém, a
resposta não esclarece a relação política existente entre integrantes do
gabinete do senador e Peixe.
“Sobre o fato mais escabroso – a
proximidade entre o senador e um miliciano condenado –, Flávio não deu uma
satisfação sequer aos eleitores”, afirma o jornal.
O editorial sustenta que o
episódio não seria isolado e relembra manifestações feitas por Flávio Bolsonaro
desde seu período como deputado estadual no Rio de Janeiro.
Declarações favoráveis às
milícias
O jornal recorda que, em 2007,
Flávio defendeu na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) as milícias
como um “novo tipo de policiamento” e classificou crimes cometidos por
integrantes desses grupos como “casos isolados”.
Em outro discurso citado pelo
editorial, o então deputado estadual afirmou que “não se importaria” em pagar
mensalidades de “R$ 30 ou R$ 40” a grupos dessa natureza para “ter mais
segurança”.
O texto também recupera a relação
do gabinete de Flávio na Alerj com familiares de Adriano da Nóbrega,
ex-policial militar apontado como uma das principais lideranças do Escritório
do Crime.
Adriano morreu em 2020, durante
uma operação policial na Bahia. Segundo o editorial, sua trajetória e as
conexões políticas construídas no Rio integram um histórico que precisa ser
considerado diante da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
“Sombra dos milicianos”
Ao reunir os episódios, o Estadão
afirma que a relação de Flávio Bolsonaro com personagens ligados às milícias
acompanha sua carreira desde o início de sua passagem pela Alerj, em 2003.
“A ligação entre Flávio e
‘Peixe’, por mais problemática que seja, não é um desvio pontual”, diz o
editorial.
O jornal argumenta ainda que o
tema ganha maior dimensão devido à proximidade da eleição presidencial e à
possibilidade de o senador chegar ao Palácio do Planalto.
Na conclusão, o editorial afirma
que cabe aos eleitores decidir entre os candidatos registrados, mas sustenta
que o histórico político do senador deve fazer parte da avaliação pública sobre
sua candidatura.
“Cada eleitor tem a liberdade
assegurada pela Constituição para dar seu voto a qualquer candidato
regularmente registrado na Justiça Eleitoral”, diz o texto.
Em seguida, o Estadão
apresenta sua avaliação mais contundente: “Mas que todos estejam cientes de
que, dado o histórico, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute o
risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República”.
Registe-se aqui com seu e-mail


ConversãoConversão EmoticonEmoticon