Mensagens encontradas pela
Polícia Federal no celular de Robson Calixto da Fonseca, o “Peixe”, mostram o
ex-policial militar chamando Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de “nosso senador”
enquanto buscava recursos de uma emenda parlamentar para uma entidade do Rio de
Janeiro. O parlamentar é candidato à Presidência da República atualmente.
A revista
Piauí revelou que Flávio destinou R$ 199.999,79 ao projeto depois das
tratativas entre Calixto e uma assessora de seu gabinete. Em fevereiro, o STF
condenou Peixe a nove anos de prisão pela participação no grupo envolvido no
assassinato de Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes, mortos por
integrantes do crime organizado em março de 2018 no município do Rio por causa
das denúncias feitas pela vereadora contra atividades milicianas, como a
exploração imobiliária ilegal em regiões mais afastadas do centro da capital
fluminense.
A investigação da PF tenta
esclarecer se o dinheiro público destinado ao Instituto de Formação
Profissional José Carlos Procópio (Ifop) sofreu desvio e se integrantes da
estrutura ligada aos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão se beneficiaram da
verba.
O filho de Jair Bolsonaro afirma
que destinou os recursos dentro da legislação e que o Ministério do Esporte
aplicou critérios técnicos na análise do projeto.
“Nosso senador”
A PF recuperou as conversas em
março de 2024, quando cumpriu uma ordem de busca e apreensão contra Calixto
durante a investigação do caso Marielle. Em uma das mensagens, Peixe procurou
Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária parlamentar que trabalhava no
gabinete de Flávio no Senado, e escreveu: “Amiga vê com o nosso Senador se
consegue [sic] nos ajudar”.
Investigadores classificaram
Maria de Fátima como “interlocutora direta de Robson Calixto no gabinete
senatorial”. A corporação também apontou que os diálogos indicavam proximidade
entre Peixe, a assessora e o entorno político do senador.
A funcionária orientou Calixto a
formalizar o pedido por e-mail ou ofício. Depois, perguntou quando ele iria a
Brasília. O ex-policial respondeu que pretendia viajar em novembro e voltou a
perguntar se o gabinete conseguiria liberar algum recurso.
As conversas continuaram nos
meses seguintes. Em novembro de 2023, Calixto voltou a pedir auxílio para o
instituto. Em março de 2024, escreveu que havia consultado as destinações
parlamentares e ainda não havia localizado verba enviada pelo “nosso Senador”.
Emenda chegou a quase R$ 200
mil
O senador da extrema direita
destinou exatamente R$ 199.999,79 ao Ministério do Esporte. A pasta firmou um
termo de fomento com o Ifop para financiar o projeto “Jogadores do Futuro”,
voltado a crianças da Taquara, na região de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.
A região integra a área de
influência política dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão. O STF condenou os
dois, em fevereiro de 2026, pelo assassinato de Marielle Franco e Anderson
Gomes e fixou penas de 76 anos e três meses para cada um. A Corte também condenou
Calixto a nove anos de prisão por integrar o grupo.
Calixto trabalhou anteriormente
como assessor de Domingos Brazão no Tribunal de Contas do Estado do Rio de
Janeiro. Em 2023 e 2024, ele não aparecia formalmente no gabinete de Chiquinho
Brazão, embora as mensagens mostrem que tratava de interesses ligados ao então
parlamentar.
Assessora sugeriu encontro com
Flávio Bolsonaro
Em outra conversa, Maria de
Fátima convidou Calixto para uma cerimônia de entrega de coletes à Polícia
Militar do Rio de Janeiro e sugeriu que ele levasse Chiquinho Brazão. “Leva o
deputado”, escreveu a assessora.
Segundo o relatório da PF citado
pela Folha, Flávio destinou emendas ao instituto poucos dias depois desse
evento. Os investigadores relacionam parte desses recursos a contratações que
passaram a integrar a apuração sobre possíveis irregularidades na aplicação da
verba.
A PF ainda busca determinar se
Maria de Fátima conduziu as tratativas por iniciativa própria ou se recebeu
orientações de outras pessoas do gabinete.
TCU encontrou irregularidades
na execução
A investigação também incorporou
uma análise do Tribunal de Contas da União. O Relatório Técnico nº
1/2025-TCU/SEINC/ADJ examinou as contratações realizadas com os R$ 199.999,79 e
identificou uma série de problemas.
Entre os casos analisados, o Ifop
contratou para coordenar o projeto esportivo um escritório de advocacia
pertencente ao próprio presidente da entidade, José Rômulo Oliveira Alves.
O mesmo dirigente assinou o
contrato nos dois lados da operação: em nome da instituição contratante e como
responsável pela empresa contratada. A atividade econômica cadastrada pelo
escritório na Receita Federal também não tinha relação com coordenação de
projetos esportivos, segundo a apuração.
Os técnicos do TCU apontaram
conflito de interesses na operação. A PF usa esse material para aprofundar a
investigação sobre o destino dos recursos.
A corporação não concluiu, até o
momento, que Flávio Bolsonaro tenha participado de eventual desvio da verba. A
investigação busca identificar a atuação de cada pessoa envolvida e o caminho
percorrido pelo dinheiro.
PF apura possível desvio de
emendas
A investigação faz parte de uma
apuração mais ampla sobre recursos parlamentares enviados a organizações sem
fins lucrativos no Rio de Janeiro.
Segundo a PF, o esquema sob
investigação teria usado pagamentos indevidos, empresas intermediárias e
mecanismos destinados a esconder a origem e o destino de recursos provenientes
de emendas federais.
Em junho, a corporação realizou
uma operação para apurar suspeitas relacionadas a verbas destinadas por
Chiquinho Brazão a ONGs. Os investigadores apuram possíveis crimes de peculato,
lavagem de dinheiro e organização criminosa. Calixto figurou entre os alvos.
A PF calcula que Flávio destinou
cerca de R$ 600 mil à organização investigada. Além dos quase R$ 200 mil para o
“Jogadores do Futuro”, o senador enviou aproximadamente R$ 400 mil para Barra
do Piraí, no interior do Rio, por meio de uma emenda Pix.
Conversas também mostram
pedido de ingressos
Os diálogos recuperados pela PF
registraram ainda um pedido feito pela assessora de Flávio a Calixto para obter
quatro ingressos para o desfile das campeãs do Carnaval carioca no camarote
Arpoador.
A investigação classificou a
solicitação como pedido de “vantagem indevida”. Os registros indicam que
Calixto conseguiu quatro credenciais com outro interlocutor, mas as mensagens
não comprovam que ele tenha entregue os ingressos à assessora.
Esse episódio integra o conjunto
de elementos que a PF usa para avaliar a relação mantida entre Calixto e
integrantes do gabinete do senador.
Flávio Bolsonaro afirma que
emenda seguiu a lei
A assessoria de Flávio Bolsonaro
negou irregularidade na destinação dos recursos. Em manifestação enviada à
Folha, o senador afirmou que a entidade beneficiária responde pela execução da
verba e que os órgãos de controle devem analisar eventuais problemas.
“A entidade executora apresentou
notas fiscais dos materiais adquiridos e devolveu os valores não utilizados. A
responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do
parlamentar. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de
controle, como determina a lei”, afirmou a assessoria.
A defesa de Robson Calixto não
respondeu aos contatos realizados pela Folha até a publicação da reportagem. O
representante de Chiquinho Brazão informou que não comentaria o caso, enquanto
a defesa de Domingos Brazão declarou que não atua no tema relacionado às
emendas.
A Polícia Federal continua
apurando a negociação da verba, a atuação dos intermediários e a aplicação dos
recursos destinados ao Ifop. Até agora, a investigação identifica indícios de
irregularidades na execução do projeto, mas ainda não apresentou uma conclusão
que atribua a Flávio Bolsonaro participação em eventual desvio do dinheiro
público. 247
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