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* Flávio Bolsonaro destinou milhões em emendas a ONG fantasma e instituto de miliciano, diz site.

Emendas parlamentares do senador Flávio Bolsonaro (PL) foram usadas para pagar o Instituto de Medicina e Projeto (IMP), enquadrado pela Receita Federal como “inexistente de fato” e investigado pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), além de duas empresas alvo de operação da Polícia Federal por suspeita de fraude em licitações.

A apuração, realizada pelo UOL, rastreou os beneficiários dos recursos destinados pelo senador desde 2020, revelando um padrão de repasse a entidades com histórico de irregularidades graves. O caso envolve ainda um miliciano condenado pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, que teria tratado diretamente da liberação de emendas com uma assessora do senador.

A reportagem rastreou as empresas e entidades contratadas pelos órgãos públicos que receberam os recursos de emendas do senador Flávio Bolsonaro (PL) desde 2020, quando mais de R$ 300 milhões foram reservados para suas emendas no orçamento federal. O levantamento identificou pagamentos ao Instituto de Medicina e Projeto (IMP), às empresas Glágio do Brasil e Inbra-Tecnologia, e ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP), este último alvo de reportagem anterior, de setembro de 2025, que já apontava indícios de irregularidades na destinação de R$ 200 mil para um projeto esportivo em Taquara, no Rio.

O IMP recebeu R$ 666 mil em agosto de 2025, provenientes de emenda destinada à saúde de Mesquita (RJ). A Glágio do Brasil recebeu R$ 569 mil entre maio e junho, e a Inbra-Tecnologia, R$ 1,1 milhão, ambas em convênios com emendas do senador. As três entidades têm em comum o fato de estarem sob investigação ou terem sido formalmente classificadas como irregulares por órgãos públicos, o que torna o conjunto das descobertas especialmente grave.

Há ainda um elemento que conecta as emendas ao crime organizado. Segundo mensagens reveladas pelo Estadão, Robson Calixto, o miliciano conhecido como Peixe, condenado no caso do assassinato da vereadora Marielle Franco, tratou da liberação de emendas de Flávio Bolsonaro diretamente com uma assessora do senador. O dado amplia o escopo político do caso para além das irregularidades administrativas.

O caso do Instituto de Medicina e Projeto (IMP)

Em 2024, Flávio Bolsonaro destinou R$ 3,1 milhões para a atenção básica de saúde de Mesquita (RJ), município governado pelo PL. Desse total, R$ 666 mil foram pagos ao IMP em agosto de 2025, segundo apuração do UOL. O repasse ocorreu meses depois de a Receita Federal, em junho deste ano, enquadrar o instituto na categoria “inexistente de fato”, com base em “razões que evidenciam que a empresa foi constituída para prática de fraude fiscal, inclusive em proveito de terceiras empresas”, conforme documento do órgão.

O TCE-RJ investiga o IMP desde 2024. Em acórdão de 2025, o tribunal apontou ausência de estudos técnicos realizados pela prefeitura antes de transferir a gestão da saúde pública municipal ao instituto, além de indícios de conluio na concorrência vencida pela entidade. O acórdão registrou ainda que uma das pessoas que assinavam documentos do IMP estava morta desde 2017. Só Mesquita firmou contratos de mais de R$ 580 milhões com o instituto entre 2019 e o final de 2024, segundo documentos consultados pelo UOL. Além das emendas de Flávio, recursos de outros três deputados, do PL, do PSDB e do PSD, também foram usados para pagar despesas do IMP na cidade.

O perfil do instituto reforça as suspeitas. O IMP não tem site desde 2021, os e-mails informados nos contratos não funcionam e o telefone registrado na Receita Federal não atende. Segundo reportagem do G1 de 2023, citada pelo UOL, o presidente do instituto era um idoso beneficiário de programa social e morava de favor. Diante das irregularidades acumuladas, a prefeitura de Mesquita decretou em abril deste ano que o IMP não poderá assinar novos contratos com a cidade por dois anos. No processo administrativo aberto pelo município, a entidade “não apresentou defesa escrita, não constituiu advogado e não manifestou interesse na produção de provas”, conforme informou a própria prefeitura.

Empresas investigadas pela Polícia Federal

Além do IMP, emendas de Flávio Bolsonaro também foram usadas em despesas do governo do Rio de Janeiro com empresas que estão na mira de operação da Polícia Federal. As investigações da PF miram suspeitas de fraude em licitações de equipamentos de proteção balística para a Polícia Militar do Rio de Janeiro, um setor com histórico de irregularidades e contratos milionários.

A Glágio do Brasil, alvo direto da investigação da PF, recebeu R$ 569 mil entre maio e junho em convênios que incluíam emendas de Flávio Bolsonaro. Segundo o UOL, a maior parte desse valor veio de um convênio com recursos também de Daniela do Waguinho (Republicanos) e Hélio Lopes (PL). A Inbra-Tecnologia, citada como parte de um segundo grupo investigado na mesma operação, recebeu um pagamento de R$ 1,1 milhão proveniente de emendas do senador.

O fato de duas empresas sob investigação por suspeita de cartel em licitações públicas figurarem entre os beneficiários das emendas de Flávio Bolsonaro aprofunda as questões sobre os critérios de seleção dos contratados pelos órgãos que recebem esses recursos. Os pagamentos às duas empresas ocorreram enquanto a operação da PF já estava em curso, o que torna ainda mais relevante a necessidade de esclarecimentos sobre o fluxo de decisões que levou à contratação.

A defesa de Flávio Bolsonaro e o cenário político

Procurado pelo UOL, Flávio Bolsonaro afirmou não indicar as empresas que receberão os valores enviados por ele aos órgãos públicos beneficiários das emendas. A declaração transfere a responsabilidade pela escolha dos contratados para as prefeituras e governos estaduais que recebem os recursos. É uma resposta que segue o protocolo padrão de parlamentares questionados sobre o destino de emendas: o senador destina, o ente público contrata.

O argumento, porém, tem limites políticos evidentes. As emendas parlamentares são recursos do orçamento federal que deputados e senadores direcionam a projetos e obras em seus estados e municípios, e funcionam como um dos principais instrumentos de influência política no Brasil. Quando o dinheiro chega a entidades com irregularidades documentadas, a pergunta sobre a responsabilidade do parlamentar não se resolve apenas com a afirmação de que ele não escolheu o fornecedor. A fiscalização sobre quem recebe as emendas é, na prática, fragmentada: o parlamentar indica o destino, o órgão público contrata, e os mecanismos de controle raramente operam em tempo real.

O caso de Flávio Bolsonaro se insere em um debate mais amplo sobre o modelo das emendas parlamentares no Brasil, que nos últimos anos cresceu em volume e opacidade. A combinação de recursos elevados, baixa transparência e controle frágil cria condições para que entidades com histórico de irregularidades continuem sendo contratadas com dinheiro público, independentemente de quem tenha feito a destinação original.

Implicações e próximos passos

As revelações do UOL abrem caminho para que órgãos de controle como o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União (TCU) aprofundem o escrutínio sobre a destinação das emendas de Flávio Bolsonaro. O conjunto de irregularidades identificado, envolvendo uma entidade classificada como “inexistente de fato” pela Receita Federal, empresas investigadas por cartel e a presença de um miliciano condenado nas tratativas de liberação de recursos, oferece elementos concretos para investigações formais.

Para o IMP, a situação já é crítica. Além de estar proibido de assinar novos contratos com Mesquita por dois anos, o instituto enfrenta investigação ativa do TCE-RJ e a classificação da Receita Federal como entidade constituída para prática de fraude fiscal. Esses elementos podem levar a sanções mais severas, incluindo a rescisão de contratos ainda ativos com outros municípios do Rio de Janeiro e eventuais ações de ressarcimento ao erário. A Glágio do Brasil e a Inbra-Tecnologia, por sua vez, já estão na mira da PF, e a identificação de recursos de emendas parlamentares nos pagamentos a essas empresas pode ampliar o escopo das investigações em curso.

A prefeitura de Mesquita, que firmou mais de R$ 580 milhões em contratos com o IMP ao longo de cinco anos, também deverá enfrentar questionamentos sobre a gestão desses vínculos e sobre a fiscalização dos recursos públicos aplicados. O fato de a própria prefeitura ter aberto processo administrativo contra o instituto, e de o IMP não ter apresentado defesa, indica que o município reconhece a gravidade das irregularidades, mas não elimina as perguntas sobre como contratos dessa magnitude foram mantidos por tanto tempo sem controle efetivo. 

- Flávio Bolsonaro em ato de campanha em academia de Jiu-Jitsu.

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