udo começou em janeiro de 2023.
Terminava o governo de Jair Bolsonaro, e as bets, que funcionavam no
Brasil desde 2018, ainda não haviam sido regulamentadas. O mundo das apostas,
com isso, se transformara num vale-tudo. No vácuo regulatório, o Supremo
Tribunal Federal resolveu autorizar as loterias estaduais a explorar o jogo.
Abria-se assim um universo para que governos e empresários pudessem faturar
alto. A possibilidade fez brilhar os olhos de Cláudio Castro (PL-RJ), então
governador do Rio de Janeiro, e de Willer Tomaz, amigo de todas as horas de
Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Naquele mesmo mês de janeiro,
Tomaz entrou em ação. Com um capital de 50 mil euros, criou a Cathedral
Holdings, com sede em Funchal, capital da Ilha da Madeira, em Portugal. Com
isso, ele e seu sócio formal, Jorge Barbosa Dias, aproveitavam os benefícios
fiscais oferecidos pela ilha, que é considerada uma espécie de paraíso fiscal.
Instalaram a nova empresa numa salinha, de número 105, no Marina Club, um
moderno edifício da Avenida Arriaga, uma das principais de Funchal.
Em fevereiro, veio o passo
seguinte. Com um capital de 1 milhão de reais, o grupo empresarial de Tomaz
criou a Rede Loto Ltda, uma empresa de apostas. Escolheu um nome fantasia para
sua casa de jogos: Best Bet. A Best Bet, cuja sede ficava em São Paulo, era
controlada pela Cathedral, na Ilha da Madeira. Com esse movimento, Tomaz
repetia um modelo comum adotado pelas casas de aposta na época, em que empresas
no exterior eram as principais controladoras das bets no país. Armava-se
o cenário para Tomaz explorar as apostas que, já então, movimentavam bilhões de
reais.
Em abril, deu-se o grande passo.
O governador Cláudio Castro, aproveitando a decisão do STF de permitir que as
loterias estaduais faturassem com bets, resolveu entrar no negócio. A
Loterj, loteria do estado do Rio, abriu uma licitação, que resultou, em maio,
na concessão de licenças de operação para treze empresas – entre elas, a
recém-criada Best Bet. Em pouco tempo, a empresa de Willer Tomaz obteve a
autorização para explorar o jogo, em despacho assinado pelo presidente da
Loterj, Hazenclever Cançado, que ocupava o cargo por indicação de Flávio
Bolsonaro, segundo o jornal Folha de S.Paulo (e cujo filho, o advogado
Hazenclever Cançado Júnior, trabalhou como assessor no gabinete do ministro
Kassio Nunes Marques entre agosto de 2020 e junho deste ano). Em julho, outra
boa notícia: graças a uma gambiarra permitida pela Loterj, a Best Bet passou a
operar nacionalmente, e não apenas no Rio, onde havia obtido a licença. Seu
potencial de mercado ampliou-se enormemente.
Na mesma época em que ganhou a
licitação da Loterj, Tomaz tomou uma nova providência no exterior: criou a
Alcazar Holdings, também na Ilha da Madeira, com um braço no Brasil, a Alcazar
Brasil Ltda, sediada em São Paulo. As conexões entre a Cathedral, dona da Best
Bet, e a Alcazar são evidentes. No papel, as duas têm o mesmo dono, Willer
Tomaz. Também têm o mesmo administrador, Mateo Scudeler. E as duas funcionam
naquela mesma salinha de número 105 do edifício Marina Club, em Funchal. A piauí
esteve no local na sexta-feira, dia 16 de outubro. Não há sinal de que as duas
firmas funcionem de fato no prédio. São empresas de fachada, o que não é
incomum em paraísos fiscais. No papel, a Cathedral tem apenas um funcionário. A
Alcazar, nem isso.
Os registros contábeis das duas
empresas, obtidos pela piauí junto à Iberinform, empresa espanhola com filial
em Portugal e especializada em informações comerciais e análise de risco de
crédito, mostram ainda outros vínculos entre a Cathedral e a Alcazar. Em 2025,
por exemplo, a contabilidade da Cathedral informava que a empresa era credora
de 984 mil euros, um salto em relação aos 7,8 mil euros que tinha para receber
no ano anterior. A contabilidade da Alcazar, por sua vez, mostrava o movimento
exatamente oposto: a empresa devia 8,1 mil euros e passou a dever 824 mil
euros, valores próximos ao que a Cathedral tinha para receber.
Um auditor fiscal que trabalha na
Autoridade Tributária e Aduaneira, equivalente português da Receita Federal,
examinou os relatórios contábeis a pedido da piauí. Ele falou sob anonimato por
não ter autorização do fisco português para se manifestar publicamente. “É
possível que a Cathedral tenha financiado a Alcazar, total ou parcialmente”,
afirmou ele, mencionando um laço que torna as gestões das duas empresas uma
coisa só.
É exatamente neste ponto que
entra em cena o senador Flávio Bolsonaro, amigo de Willer Tomaz. Conforme
revelou o UOL, Flávio era “usuário máster” da conta bancária da Alcazar, no
Santander. A designação “máster” refere-se a uma pessoa cadastrada no banco com
elevados privilégios de acesso e de administração dos serviços bancários
digitais, sobretudo de contas empresariais. Um “usuário máster” pode consultar
saldos, extratos e movimentações financeiras. Pode cadastrar, alterar ou
excluir outros usuários da conta. Também pode definir permissões e limites
operacionais de outros usuários. E pode, por fim, fazer e autorizar
transferências, pagamentos e outras operações financeiras. Na conta da Alcazar
no Santander, havia apenas dois usuários máster – Flávio Bolsonaro e Willer
Tomaz.



Registe-se aqui com seu e-mail


ConversãoConversão EmoticonEmoticon