Dois dos três ministros do
Supremo Tribunal Federal (STF) que votaram nesta terça-feira (8) para manter o
afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal
têm filhos citados em reportagens sobre relações com Daniel Vorcaro ou com
empresas que receberam dinheiro do Banco Master.
Luiz Fux e Kassio Nunes Marques
acompanharam o relator André Mendonça e formaram maioria na Segunda Turma para
referendar a decisão que retirou Andrei do comando da PF. Durante a gestão do
delegado, a corporação conduziu as investigações sobre o Master que levaram à
prisão de Vorcaro.
As relações envolvendo os filhos
dos ministros são distintas. Kevin de Carvalho Marques, filho de Nunes Marques,
recebeu por meio de seu escritório pagamentos de uma consultoria que, no mesmo
período, recebeu R$ 6,6 milhões do Master. Rodrigo Fux, filho de Luiz Fux,
esteve em pelo menos dois eventos com Vorcaro, segundo reportagens publicadas
pela Folha de S.Paulo e pelo Metrópoles.
Não há evidências de que essas
relações tenham influenciado os votos de Fux e Nunes Marques sobre o
afastamento do diretor da PF. O escritório de Kevin de Carvalho Marques recebeu
R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária em 11 transferências realizadas
entre 2024 e 2025, segundo reportagem da Folha de S.Paulo baseada em
informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
No mesmo período, a Consult
recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master, distribuídos em 14 operações. Outros R$
11,3 milhões foram pagos pela JBS. De acordo com os dados publicados pelo
jornal, as duas empresas responderam por toda a receita registrada pela consultoria
naquele intervalo.
O Coaf apontou incompatibilidade
entre a movimentação financeira e a capacidade econômica informada pela Consult
e indicou a possibilidade de a empresa ter funcionado como conta de passagem.
Os documentos conhecidos não
demonstram que os R$ 281,6 mil pagos ao escritório de Kevin tenham origem nos
recursos transferidos pelo Master. O que está documentado é que a Consult
recebeu recursos do banco e realizou, no mesmo período, pagamentos ao escritório
do filho de Nunes Marques.
Segundo a revista piauí, a
relação entre Kevin e a família responsável pela Consult também envolveu uma
sociedade empresarial.
Em outubro de 2024, Kevin
tornou-se sócio de Gabriel Campelo de Carvalho no Instituto de Pesquisa e
Gestão Tributária (IPGT). Gabriel é filho de Francisco Craveiro, responsável
pela Consult.
A piauí informou ainda que as
famílias Craveiro e Nunes Marques mantêm uma relação pessoal próxima,
confirmada pelo gabinete do ministro. O IPGT e a Consult também chegaram a
utilizar o mesmo endereço fiscal em Alphaville.
Gabriel havia deixado formalmente
a Consult em julho de 2024. No mês seguinte começaram os pagamentos do Master e
da JBS à empresa. Em outubro daquele ano, ele constituiu a sociedade com Kevin.
Kevin afirmou ter recebido R$
234,8 mil líquidos pela prestação de serviços de assessoria jurídica. Disse
ainda que o compartilhamento de endereço foi temporário e negou que o IPGT
tenha relação com a Consult.
Não há, nas informações tornadas
públicas até agora, indicação de participação de Nunes Marques nessas operações
financeiras.
Rodrigo Fux esteve em eventos com
Vorcaro
Rodrigo Fux, advogado e filho de
Luiz Fux, esteve em pelo menos dois eventos com Daniel Vorcaro antes da prisão
do banqueiro.
Segundo reportagem da Folha de
S.Paulo, Rodrigo participou da área VIP do camarote Alma Rio, na Sapucaí,
durante o Desfile das Campeãs do Carnaval de 2025.
Mensagens obtidas no celular de
Vorcaro mostram o banqueiro tratando da organização dos convidados e
determinando que “Fux” fosse acomodado no espaço VIP. Vorcaro era parceiro de
Álvaro Garnero no camarote e ajudava a financiá-lo.
Rodrigo confirmou sua presença,
mas afirmou ao jornal que não mantinha amizade com Vorcaro. Segundo ele, houve
uma tentativa de aproximação comercial por parte do banqueiro que não avançou.
“Nunca tivemos relação comercial,
nunca advoguei para ele”, afirmou.
Rodrigo também esteve em uma
degustação exclusiva de uísque em Nova York custeada por Vorcaro. O evento
reuniu cerca de 40 convidados.
De acordo com o portal, Luiz Fux
também havia sido convidado, mas não compareceu. Pessoas próximas à família
afirmaram que Rodrigo permaneceu pouco tempo no evento e que seu escritório
nunca prestou serviços ao banqueiro ou ao Banco Master.
Votos mantiveram afastamento de
Andrei
Fux e Nunes Marques deram seus
votos nesta terça para confirmar a decisão de André Mendonça que afastou Andrei
Rodrigues da direção-geral da PF e Leandro Almada da Diretoria de Inteligência
da corporação.
Com os votos dos dois ministros,
Mendonça formou maioria de três votos na Segunda Turma.
A decisão atinge a cúpula da PF
responsável pelas investigações do Banco Master. Sob o comando de Andrei, a
corporação deflagrou a operação que levou Vorcaro à prisão e avançou sobre
negócios e relações mantidas pelo banqueiro.
O afastamento também provocou
reação do governo. A Advocacia-Geral da União decidiu questionar a medida sob o
argumento de que cabe ao presidente da República nomear e exonerar o
diretor-geral da Polícia Federal.
Gilmar Mendes pediu vista no
julgamento. Apesar da interrupção da análise, a decisão de Mendonça permanece
em vigor e Andrei continua afastado do comando da corporação.
Até a publicação desta
reportagem, não havia sido apresentada no julgamento indicação de que as
relações dos filhos de Fux e Nunes Marques com pessoas ou empresas do entorno
do Master tenham sido consideradas na análise dos ministros sobre o afastamento
da cúpula da Polícia Federal.
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